Livro no Brasil

Este é a singela opinião de uma pessoa que está no mercado editorial há mais ou menos cincos anos.

Trabalhar em editora nunca foi meu principal objetivo de vida. Eu queria ser cientista, astronauta, arqueóloga, aquelas profissões que apareciam com uma certa frequência no cinema.

Quando estava no ensino médio eu queria fazer história. Influenciada, em parte, por ótimos professores, mas também pelas aventuras de Hercule Poirot na Mesopotâmia, no Nilo.

Descobri que arqueologia, pelo menos no Brasil, não daria em nada e desisti.

Fui para a Letras, que fora do país se chama Fine Arts, uma denominação muito mais digna.

Além da arqueologia, Agatha Christie me despertou a paixão pelos livros e então me descobri em uma carreira.

Trabalhar em editora uniu duas coisas: o amor pelos livros físicos (seu cheiro, a textura do papel, o design) e o amor pelas palavras. Abrir um calhamaço de folhas e entrar numa aventura que a cada página se desdobra em algo inimaginável não tem preço.

Eu amo livros. Carrego um na bolsa, esse eu leio no metrô. Tenho um epub no computador, esse eu leio no almoço. Tenho um exemplar de 500 páginas, esse eu leio em casa.

Mas meu amor pela criação de Gutenberg me deixa um pouco melancólica, às vezes.

No Brasil, é muito complicado pensar em livro, pensar em ter uma editora, pensar em viver disso. Tirando o fato de que a população brasileira não lê com tanta frequência, isso já é incrivelmente desanimador, nós, do mercado editorial, nos deparamos com outra tristeza: as pessoas podem até comprar um livro, mas elas não o lerão.

Fato.

Quantos livros você comprou este ano? Dez? Quantos desses dez você leu? Dois… Três?

Hoje, no Brasil, livro virou artigo de luxo, de colecionador.

Isso não é ruim para o mercado, na verdade isso mantém o meu emprego vivo. Muitos dirão que o importante é que o estoque se esgote, que as livrarias façam pedidos. E de fato, isso é muito importante. O mercado editorial fechou o primeiro semestre de 2017 de forma positiva.

Mas e o outro lado?

As pessoas não leem!

A gente batalha atrás de um super tradutor, uma super revisora e um super prefaciador, todos, em suma, especialistas no autor, na obra, no gênero, no idioma e tudo isso para quê? Meu trabalho vai ficar lindo na sua estante, na sua mesa de centro e só.

O sintoma mais claro dessa “gourmetização” do livro é a exigência dos leitores. Eles querem livros gigantescos e de capa dura. A pobre da brochura foi deixada de lado, confinada nos livros didáticos, aqueles que ninguém lê mesmo.

O livro, aquele amontanhado de papel que serve para te contar algo, precisa ser funcional. E quer um formato mais funcional que o 14×21/brochura? É leve, dobrável e cabe em qualquer bolsa. Tirando o pocket, que é péssimo, pois as letras são miúdas e super condensadas, a brochura é a melhor opção. Nela, conseguimos fazer capas lindas, um trabalho gráfico de primeira, e conseguimos, também, dar conforto ao leitor.

Mas não… O brasileiro não gosta. A primeira pergunta/afirmação que nos fazem é: será capa dura, né?

Nos Estados Unidos, as editoras investem nele, na brochura, no paperback. E as pessoas compram, não apenas por que eles são baratos, a diferença de preço é mínima (uma brochura custa uns 10 dólares, enquanto uma capa dura custa uns 15), mas por que elas leem.

Entrei na Strand, na Barnes & Noble, na loja física da Amazon e vi, na maior parte das prateleiras, as brochuras, as lindas e confortáveis brochuras.

Não me levem a mal, não é que eu não goste de uma capa dura, acho linda. Só a vejo como um sintoma da “não leitura”.

Espero que este nicho que tanto amo supere essa gourmetização, que o Brasil tenha cada vez mais leitores e não somente compradores e que as pessoas entendam que livro deve ser atrativo, bonito, charmoso, mas que sua principal função é nos fazer viajar com as pés no chão, que entendam que livro é, principalmente, para ser lido.

1 thought on “Livro no Brasil

  1. Só li verdades nesse seu artigo Mayara, eu por exemplo já comprei muitos livros, mesmo tendo parcerias, porém ler os livros adquiridos é um trabalho árduo, pois preconizo os livros que recebo de editoras e isso tem um ponto negativo, eu leio poucos livros dos que compro e normalmente são livros que quero ler há algum tempo.

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