Enquanto despertava lentamente, o cheiro do café invadia o quarto, o mesmo aroma de todos os dias, que, embora repetitivo, não causava enjoo ou repudia. Fazia tudo as pressas, o banho, a escova no cabelo, a escolha da roupa de todo dia: uma calça jeans, um par de tênis e uma camiseta não tão surrada – havia sido comprada nas últimas férias.

A pressa tinha um sentido e demostrava, acima de tudo, o desleixo com a própria aparência. Sem maquiagem, de cara lavada, descia correndo as escadas para apreciar o que o aroma havia aguçado. Café, puro mesmo. Sem açúcar ou leite. Só o líquido preto na xícara branca, já machada, que visualmente gerava um contraste clichê, mas ainda sim incrível. O café era tomado com o bafo matinal, os dentes eram lavados depois afinal, a pasta de menta estragaria qualquer apreciação.

Café tomado, dente lavado. Hora de sair. Os compromissos diários do dia-a-dia já batiam na porta. Cindo minutos de atraso e o metrô estaria um inferno, mais do que o habitual. Teria mais gente, respirando o ar exalado pelo vizinho, por metro quadrado.

Os pensamentos que guiavam sua viagem se desenvolviam na seguinte ordem: “tenho três e-mails que precisam ser respondidos assim que eu colocar a minha bunda na cadeira; minha gaveta tá uma bagunça, talvez eu consiga arrumá-la hoje; será que o café estará pronto?”.

A segunda xicara, não branca, mas colorida estava estacionada na mesa, ao lado do bloco de notas todo rabiscado.

O aroma era o mesmo que invadira seu quarto. Não reconhecia diferenças entre marcas e sabores, seu cérebro só sabia que o conforto logo chegaria.

Café, reunião, café, almoço, café. E a terceira xícara chegava, com a esperança de ser a última, “ando bebendo muito café”, pensava.

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