O título deste texto parece aqueles que encontramos nas teses de mestrado que lotam os corredores das bibliotecas universitárias. Mas este é apenas um texto curto de uma epifania que surgiu enquanto assistia ao oitavo episódio da nova temporada de Twin Peaks.

Neste semestre, tive aulas de Teatro Francês. Nestas aulas, entrei em contato com inúmeros autores franceses, Victor Hugo, Racine, Edmond Rostand…  e Ionesco, este último foi o autor que mais me marcou.

Eugène Ionesco, nascido na Romênia, passou a maior parte da infância na França e só regressou à terra da baguete para concluir sua tese de doutorado, ano que coincidiu com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Devido à Guerra, permaneceu na França e lá se revelou escritor.

Ionesco é considerado, junto a Beckett, pai do Teatro do Absurdo, um teatro que bebia nas fontes do surrealismo e expressionismo. Sua composição era de elementos chocantes e por diversas vezes ilógicos, que visava causar um desconforto ao reproduzir a sociedade incoerente e absurda da época.

As obras mais famosas de Ionesco são Rhinocéros e La Cantatrice Chauve (A Cantora Careca). Esta última ilustra o absurdo da existência humana e o distanciamento entre as pessoas. Numa determinada cena, marido e mulher descobrem que são realmente casados após uma série de coincidências, como por exemplo, terem o mesmo filho. A peça se passa na Inglaterra e mostra a vida de dois casais, se desenrolando entre as conversas banais que fazem pouco sentido e que são, até mesmo, palavras desarticuladas.

Ionesco dizia que fazia um teatro puro, um teatro que não fornecia muita informação ao espectador. O teatro de Ionesco era o que cada um queria ou entendia ver. Por exemplo, na obra Rhinocéros, todos os personagens se transformam em rinocerontes e isso não é, em momento algum, explicado. Por que rinocerontes? Cada espectador tem a sua teoria.

O teatro puro era desprovido de convenções, era imaginativo e extremamente poético. Eugène rejeitava as estruturas lógicas, o pensamento do teatro tradicional e criava sua própria forma de expressar a existência sem sentido do homem moderno. Se pararmos para analisar La Cantatrice e perguntarmos “sobre o que se trata?” não encontraremos uma resposta na peça em si.

Vendo a mais nova temporada de Twin Peaks, escrita e dirigida por David Lynch, tive a sensação de estar diante de uma obra de Ionesco. Lynch nos trouxe, até agora, oito episódios que revelam muito sobre as relações humanas e que não nos fornecem informação alguma. Esses episódios nos levam a todo tipo de interpretação. Tenho certeza que cada espectador tem a sua – “o que são os lodges presentes em Twin Peaks?”. São episódios que nos mantem colados diante da TV mesmo sem ter a forma convencional, que é responder a todas as necessidade dos espectador. É a TV pura, utilizando a linguagem do teatro, aquela que não mastiga a informação. Não é a toa que Lynch é considerado um diretor de vanguarda,  surrealista, cujas obras ganharam uma denominação específica: Lynchianas.

Lynch e Ionesco criaram obras capazes de nos descolar dos aspectos mais palpáveis da segunda e sétima artes. São autores que instigam nossas mentes com textos e imagens que não são simplesmente absorvidos, mas que são digeridos lentamente com a ajuda de muitos neurônios.

Vê-los é ter certeza de que o Surrealismo contribuiu e contribui em muito para a edificação da criatividade humana.