A casinha amarela tinha duas janelas e numa delas repousavam dois vasos, bem pequenos, com flores de cor lilás. Não soube dizer quais flores eram por que a verdade é que nada entendo de flores. Só sei reconhecer um girassol. Mas o girassol é a flor mais óbvia, talvez a mais conhecida do mundo. Graças a Van Gogh, imagino eu.

A rua de pedregulho dificultava a passagem. A rasteirinha nos pés não ajudou. Fazia muito sol e a ideia de colocar um tênis nos pés me causou aflição.

Encarei o chinelo com dignidade.

A casa onde eu estava hospedada era ao lado da casinha amarela. A minha vizinha simpática, que nunca conheci, gritava umas palavras em italiano bem regional. Eu não falo italiano, mas gosto de pensar que ela gritava no seu dialeto local. Ela gritava com uma criança ou uma jovem, não sei dizer. Só sei que a voz era estridente, característica dessa idade.

A casa amarela tinha um gatinho. Ele era amarelinho e combinava com o lugar onde morava. Estava sempre na soleira da porta. Não sei se sempre, mas pelo menos toda vez que eu passava.

Fiz uma amizade imaginaria com o bichano. Imaginei que aqueles gritos diários deveriam torturá-lo. Já ouvi dizer que os gatos tem a audição muito apurada e se o som estridente da criança me incomodava… Me compadeci com o podre animal.

Nossa amizade, aos poucos, saiu do imaginário e passou para a realidade. Toda vez que saia eu passava no mercado, ia até a sessão dos pets e comprava um pacotinho de biscoitos felinos. Ginger, o nome que inventei para ele, vinha até os meus pés atrás da comida gratuita.

Fomos nos tornando confidentes. Dois estranhos com um problema em comum: os moradores da casa amarela.

Ginger passou a me esperar na soleira todos os dias, mas não na minha volta e sim na minha ida. Eu passava e lá ia ele trotando atrás. No começo eu fiquei preocupada, “E se esse gato se perder? Será que ele consegue voltar para casa sozinho?”. Mas logo minha preocupação foi embora. Ginger era muito esperto e companheiro.

Todos os dias ele andava comigo pelo centro velho de Nápoles, me “mostrando” os lugares, me levando para ver a cidade que ele conhecia tão bem por ser um napolitano nato. Ginger, pelo meu olhar, devia ter uns cinco anos de idade.

Comemos pizza juntos. Ginger gostou do queijo e desdenhou a massa. Visitamos castelos, por fora, pois Ginger não podia entrar. Passeamos pelo shopping e lá Ginger ganhou uma coleira cor verde água, combinava com seus olhos. Demos um pulo na praia e Ginger ficou confuso com tantas conchinhas em meio aos cascalhos, tentou desenterrar todas.

Ginger se tornou a razão da minha viagem. Embora eu amasse estar desbravando uma nova cidade, eu amava mais o Ginger.

Uma semana antes do retorno ao meu país fiquei cabisbaixa. Me imaginei deixando Ginger para trás e nunca mais estando em sua companhia. Imaginei sua vida sem os meus biscoitos diários e tendo que aguentar os gritos da casa amarela. Sofri muito.

Mas eu não tinha o que fazer. Ginger não era meu. Pertencia às pessoas estridentes.

Então tive uma ideia maquiavélica. Dois dias antes do meu retorno, eu sequestraria o Ginger e esperaria para ver se alguém da casa amarela sentiria sua falta.

A ausência de Ginger não foi sequer notada. A mãe continuava gritando com a filha como havia feito desde o primeiro dia que pisei ali.

Ginger iria comigo.

Salvaria o meu gato.

Cheguei no aeroporto.

Comprei a passagem do Ginger.

Embarcamos.

Sentei-me na poltrona.

E o avião decolou.

O caminho todo senti-me uma ladra… Mas estava feliz. Ginger era meu novo companheiro e daquele momento em diante, ganharia biscoitos todos os dias de sua vida.

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