Madri – Ensopado madrileño

Eu tinha uma escala de doze horas em Madri. Quando comprei a passagem nem percebi, mas deveria ter desconfiado do preço… Estava muito acessível para não conter uma pegadinha. E tinha. Uma “pequena” escala.

Escalas são horríveis, são longas, mas não o bastante para te deixar aproveitar a cidade. Elas, secretamente, te dizem “olha essa cidade linda, você poderia desfrutá-la durante algumas horas, mas vai ficar presa nesta cadeira desconfortável, – risada maligna”. Os aeroportos, geralmente, são bem afastados de qualquer centro, o que faz sentido, ninguém merece morar ao lado das turbinas tipo Congonhas.

A escala me possibilitou um passeio pela capital espanhola. Nunca tive muita vontade de conhecer os países ibéricos, mas fui positivamente surpreendida.

A cidade é linda. Limpa. Com uma arquitetura invejável. Limpa. Canteiros com flores. Limpa… É, ela é muuuito limpa. Não encontrei sujeira na rua e olha que eu procurei, queria chegar ao Brasil e falar “nem é tudo isso, cheia de bituca de cigarro no chão”, mas não pude.

Desfrutei de umas 8 horas na cidade. O almoço estava incluso nessas horas. Com a indicação de um amigo, achei um restaurante bem simpático, O Caldino, que faz uma lula incrível. A melhor da minha vida. Comerei muitas, e tenho certeza que nenhuma será páreo para a lula do Caldino. A lula era entrada. E eu, burra, deveria ter ficado só com ela. Era grande, tava boa e era o suficiente. Achei rude não pedir o prato principal.

Eu não sabia, mas na Espanha os garçons não falam inglês, pelo menos o do Caldino não falava. Eu não falo espanhol e o espanhol deles não é o castelhano, ou seja, não dá para entender.

Com o cardápio na mão, sem entender bolhufas, tentando falar inglês, espanhol e até um italiano ridículo com o garçom, consegui pedir um pollo, que eu sabia que significava frango.

O pollo chegou. Era um ensopadão. Eu não entendi o que tinha ali dentro. Um caldo laranja, levemente apimentado, com batatas – acho que eram batatas, e pele, sim, muita pele de frango boiando… Dei duas bocadas e não consegui mais…

Fiquei com vergonha. Estava em outro país cujos costumes não me eram comuns. E se, deixar comida no prato, é sinônimo de heresia, falta de educação? Fiquei meia hora olhando para aquele caldo, tentando achar seus pontos positivos… Não deu. Larguei e agradeci.

Na hora de pagar, o garçom, que devia estar intrigado, tentando entender de que lugar eu era, afinal, tentei inglês, espanhol e até italiano, me perguntou. Respondi que era do Brasil e que estava um pouco confusa, pois tinha acabado de sair da Itália. Ele sorriu gentilmente e começou a falar português. Disse que aprendeu já que recebia muito turista do país.

Que merda! Se, desde o começo, eu tivesse soltado o bom e velho português, não teria pedido o ensopado e não teria contemplado aquela pele de frango que assustadoramente boiava.

Às vezes, não há idioma como o materno!

Photo by Zoltan Kovacs on Unsplash

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