Arnold, hoje com 74 anos, era apenas um garoto de dez quando saia do pequeno apartamento no qual a família morava, descia correndo as escadas de incêndio e tocava a campainha do prédio ao lado. “Tio Ben, vamos! Está quase na hora!”.

O caminho até o Ebbets Field era percorrido a pé e para Arnold, que quase não saia de casa, aquele passeio era o seu ritual favorito, uma jornada até o espetáculo. Durante o percurso, Arnold ia contando seus cards e lendo em voz alta o nome de todos os jogadores. O menino se empolgava quando se deparava com a figura de Jackie Robinson, “nosso melhor homem, tio”, “este ano a World Series é nossa”, o tio emendava.

O Brooklyn Dodgers era a alegria da garotada. As escolas do bairro estavam repletas de meninos que tinham a esperança de se tornarem incríveis rebatedores e um dia vestirem a camisa branca de logo azul.

Arnold não possuía tal pretensão. Contentava-se em ser um fiel espectador e quando podia acompanhava o show diretamente do palco: o grandioso Ebbets era o seu lugar favorito de todo bairro.

Mas a alegria de Arnold pouco durou. Em 1957 seu querido clube, o Brooklyn Dodgers, o traiu e num piscar de olhos tornou-se Los Angeles Dodgers. Jackie Robinson e seus companheiros foram desfrutar das praias da costa oeste e o pobre garoto ficou desolado.

“Como pode, tio Ben? Um time todo abandonar a gente?”. E eles abandonaram. De um dia para o outro os moradores da amada Brooklyn não tinham mais para quem torcer. E para eles torcer pelos Yankees ou Mets era um pesadelo, afinal, eles não eram nova-iorquinos, eles eram “pessoas do Brooklyn”.

O luto de Arnold durou meses. Seus passeios dominicais não existiam mais. Mas pelo menos, ele ainda tinha o querido Ebbets e podia, de vez em quando, contemplá-lo.

Em 1960 o Brooklyn Dodgers e quaisquer resquícios de sua existência sumiram de vez. Ebbets Field foi demolido e em seu lugar um conjunto de prédios surgiu.

Arnold sentiu-se abandonado e traído pela segunda vez.

Era isso, para ele o baseball estava acabado. Nunca mais acompanhou, nunca mais torceu.

2018 e Arnold tem 74 anos. E de um casamento feliz vieram muitos frutos, três filhos e sete netos.

Hoje é um dia especial, Arnold está sentado no Yankee Stadium, logo na primeira fileira onde tem uma visão clara do rebatedor.

Arnold acena para o jovem que segura o taco, mas o menino está muito concentrado para prestar atenção.

Hoje Arnold faz as pazes com o baseball e, depois de muitos anos sentindo falta do Ebbets Field, ele se sente pleno no estádio do rival. Arnold olha para o neto que ainda segura o taco, acena novamente e o garoto lhe dá um sorriso de canto. Arnold sente a mesma empolgação que sentia quando caminhava com o tio até aqueles portões. E com lagrimas nos olhos pensa “É, o baseball faz parte da minha vida novamente”.