Cosme Velho Segundo

A tarefa parecia ser muito fácil: sentar-se e começar a escrever. Mas, para Pedro, tal tarefa havia se tornado extremamente difícil. Ele era escritor, ou pelo menos gostava de dizer para todos que essa era a sua profissão. Com três livros publicados abandonou o cargo público e resolveu se dedicar ao que era a sua paixão.

Seus três livros tinham feito um relativo sucesso, pelo menos o primeiro, cujos direitos haviam sido vendidos para Portugal.

Foi uma alegria. Pedro começou a se imaginar fazendo um booktour por Lisboa, Porto, Sintra, Évora, se imaginou palestrando na Universidade de Lisboa, discutindo com os graduandos o simbolismo por trás do personagem Joca, o protagonista do romance Estrada dos Sonhos. Um nome clichê para uma história sem condimentos.

Nada disso se tornou realidade. O livro não vendeu bem nas terras lusas, empacou nas prateleiras das livrarias e muitos foram parar nas bibliotecas onde ninguém os lia. Pedro imaginou que suas próximas histórias fariam mais sucesso e num embalo frenético escreveu o segundo e o terceiro, um atrás do outro. Só que dessa vez nenhum gringo quis saber das suas histórias e isso o abalou. Quando chegou a vez do quarto romance, empacou na sexta página.

Colocava-se diante do computador e nada surgia. O word ficava ali, com aquele tracinho piscando, a espera das próximas palavras, mas nada saia.

O mais comum nesses casos é respirar fundo, ler um pouco, tentar escrever sobre outra coisa, um texto aleatório… Mas não, Pedro pirou. Caiu num pânico, num medo de nunca mais escrever, medo de não ter dinheiro para pagar as contas e pior, medo de cair no ostracismo. “Com três livros no mercado uma galera sabe quem eu sou, estou no skoob e em uma questão literária no vestibular de Viçosa. Mas se não lançar nada novo, em cinco anos ninguém lembrará meu nome”.

A previsão de Pedro se concretizou. O quarto livro não vingou. Morreu na página doze. E Pedro virou um desconhecido, mas continuou vivo. Arrumou um emprego, voltou para a rotina e pegou trauma da escrita. Hoje em dia só escreve a lista de compras, nada mais.

Pedro foi com muita sede ao pote, criou uma história vendável e se sentiu “O” escritor do século XXI. Seu pior crítico, no entanto, foi feroz. Deu-lhe um bloqueio criativo devastador.

Pedro, que se sentia o Machado de Assis da nova era, findou a carreira quando percebeu que o que escrevia nunca chegaria aos pés do senhor do Cosme Velho.

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