Corrida matinal

O apartamento de Georgina ficava a umas três quadras do parque. O costume era acordar às seis horas da manhã, quando ainda estava um pouco escuro, preparar aquele café preto ­– que ela não tinha certeza se fazia mal ou não –, tomá-lo e descer. No elevador, que era um pouco antigo e por isso um pouco lento, Georgina confabulava “Me falaram que seria melhor comer bananas antes de fazer exercícios (…), por causa do potássio e coisa e tal”. Mas bananas não eram o seu forte e até o cheiro lhe causava repulsa.

Georgina nunca fora atlética, mas, ultimamente, aquelas gordurinhas sobrando estavam lhe causando aflições. O parque que fazia parte do cotidiano da Nova-Iorquina era o Central Park. Talvez o parque mais famoso do mundo e, também, o mais lotado. Porém, o Central Park guarda um segredo: ele é enorme. Sua grandeza impede que o vejamos como um lugar abarrotado de gente. Então Georgina podia se exercitar sem ter que desviar dos turistas.

– Um parque é um lugar mais saudável que uma academia –, Chin, uma senhora coreana com seus 76 anos, comentava com Georgina.

Elas se encontravam sem marcar encontros. Georgina botava o pé na Park Avenue exatamente às sete da manhã e este devia ser o mesmo horário em que Chin também descia a tal avenida em direção ao monumento de William Tecumseh, na entrada leste do parque – era lá que se encontravam.

– Por que diz isso, Chin? Não sei se é um lugar saudável, mas definitivamente é um lugar mais barato. Em uma YMCA eu gastaria uns 50 dólares mensais, fácil.

– Acho saudável porque não entramos em contato com o suor e bactérias alheios. Sabe-se lá se as pessoas que trabalham nas academias limpam direito aqueles trecos onde todo mundo se senta. Minha neta vive reclamando, ela leva seu próprio pano e álcool gel.

– Tem razão! Que nojo!

Correr e falar tirava, por muitas vezes, o fôlego de Georgina. Chin lidava com isso de maneira bem elegante, quase nunca tossia. “Seu diafragma é mais treinado que o meu”, Georgina pensava.

Georgina tinha 37 anos. No mundo atual os 30 eram os novos 20 e assim por diante. Então Georgina tinha 27.

Além das gordurinhas a corrida matinal tinha outro motivo. Ela andava estressada com o trabalho, sem ânimo para encontrar os amigos e com vontade de ficar em casa vendo TV. Nem os livros a satisfaziam mais. “Qualquer exercício físico lhe fará bem”, foi a sugestão da psicóloga. Georgina escutou e aceitou.

Chin era uma senhora com um papo muito bom. Sua família havia ficado na Coreia do Norte. Ela escapara com a ajuda de um amigo sul coreano. Não tinha saudades do seu antigo país, apenas dos irmãos e sobrinhos que nunca mais vira ou soubera notícias. Os Estados Unidos a acolheram, e ali Chin fez família, se casou, trabalhou, teve filhos, se aposentou, teve netos e hoje vivia uma vida bem confortável em Manhattan.

A história de Chin inspirava Georgina. Embora tenha tido uma juventude sofrida, as ruindades que o mundo mostrou não a impediram de buscar o melhor e ter, sempre, esperança. “Dos limões ela fez a limonada”, Georgina pensava e admitia que a frase, apesar de clichê, era o resumo da vida de Chin.

Aquelas manhãs com as corridas matinais e, principalmente, com a companhia de Chin tinham dado outro sentido para a vida de Georgina. O desanimo passou e até os livros voltaram a fazer parte da sua vida. Alguns, inclusive, por indicação de Chin.

Photo by Hector Argüello Canals on Unsplash

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