Meu nono se sentou na poltrona à espera do espetáculo. O ano era 1982. Fazia uma semana que a Copa da Espanha havia começado. Minha família sempre gostou muito de futebol. As duas famílias. A parte materna era italiana, com sangue bem quente e com uma boca bem grande para xingar aos quatro ventos. A família paterna era polonesa. Gente que demonstrava pouca emoção e falava o mínimo necessário.

Aquele jogo das duas da tarde era um Itália x Polônia e, embora não tivessem nada em comum, as duas famílias partilhavam da mesma paixão: o futebol.

A Polônia, nada vitoriosa, vivia da expectativa, das apostas em sua fábrica de camisas 9. A Itália, pelo contrário, contava com dois troféus na prateleira.

A família não era tão próxima, mas sempre teve uma boa relação, o leste europeu se dava até que bem com o oeste, mesmo a babcia, de vez em quando, reclamando, “Gente barulhenta”, ela dizia.

Num dia daquele junho de 82 as duas famílias se encontraram. Almoçaram juntas.

Meu nono estava desconfortável, ele ficava nervoso diante da sua Seleção. O Jogo estava no primeiro tempo e aos 34 o camisa 9 polonês marcou um gol. 0x1. E a Polônia estava na frente. Ele xingava bastante e nem percebia que não estava em sua casa.

1×1 e o semblante do velho melhorou. Casa polonesa mais quieta que o costume. 1×2 e o italiano surtou.

O jogo terminou e o velho ficou emburrado no canto. Minha mãe, com sua sábia paciência, foi até ele e conversou, “temos dois canecos, deixe eles terem algum”. O velho melhorou, se lembrou das Copas anteriores e da emoção que sentiu vendo sua Azurra campeã.

Meu nono,  então,  desejou que a família de lá sentisse a mesma emoção. Que ela pudesse ver sua seleção erguer a taça que já havia lhe dado tantas alegrias.

A Copa e o futebol são assim, de quatro em quatro anos fazem o velho mais turrão derreter o coração.