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For Mundo

Ricardo Reis

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-proprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

O Nobel de Economia

Começou em 1968, O Prêmio do Banco da Suécia para as Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, sim, esse é o nome oficial do prêmio e ao contrário do que as pessoas pensam, ele não faz parte da Fundação Nobel, a confusão acontece devido ao nome conter “em Memória de Alfred Nobel”.  Porém, não fazer parte da Fundação Nobel não diminui a sua importância.

Ao longo dos anos vimos grandes contribuições ganharem luz e se destacarem no prêmio. Nomes conhecidos como John Nash (1994), Milton Friedman (1976), Daniel Kahneman (2002), Paul Krugman (2008) e outros menos, como a Sra. Elinor Ostrem premiada em 2009, a primeira e única mulher a receber a homenagem.

É do Sr. Thaler, juntamente com Cass Sunstein, a criação do termo “Nudge”, “arquitetura da escolha” em português, mas que tem como tradução literal “empurrãozinho”, muito mais significativo e divertido. Digo significativo, pois o termo nada mais é do que uma orientação, cutudada, empurrão mesmo, que altera o comportamento do indivíduo, geralmente de maneira previsível.

A Pesquisa de Thaler é extremamente atual. Posso chutar que 80% da população tem problemas em guardar dinheiro. Sabemos o quão importante é ter uma reserva para eventuais necessidades, o quão importante é conseguir pagar a fatura do cartão de crédito. Se sabemos que cuidar bem do dinheiro é importante, por que não conseguimos? Aí é que entra a pesquisa de Thaler. Ele busca razões para tal comportamento na parte irracional do individo. Ao contrário das teorias economicas antigas, não agimos com recionalidade quando o assunto é dinheiro.

O mérito de Thaler é analisar o individuo e verificar que algumas ações estão bem longe da racionalidade. Mapear o comportamento humano, e mostrar que as ciências econômicas estão bem longe de análises de padrões e cada vez mais perto do comportamento singular.

Afinal, Economia não é apenas sobre números e cifrões, mas é, também, sobre o ser humano.

Mariana Zucheli

Representatividade feminina

É claro que a representatividade feminina é importante. A existência de filmes com super heroínas é fundamental, ainda mais no papel de protagonistas. Toda criança que vai ao cinema assistir homem-aranha, superman, sai da sala escura sentindo-se capaz de ser aquilo que viu, de crescer e, quem sabe, ser um super herói. Mas e as meninas? Aonde elas se encaixavam? Hoje, felizmente, há esse papel para elas. Mulher Maravilha chegou e fez bonito. Agora toda garotinha sairá do cinema sentindo-se uma wonder woman também.

A representatividade é fundamental, mas não deve estar atrelada à santificação. O filme com Gal Gadot fez sucesso por que é bom. Se fosse um saco, não teria feito. Isso não é boicote, é justiça.
É errado colocar a culpa de uma péssima bilheteria na direita, nos conservadores, nos católicos, nos judeus.

Recentemente, minha irmã assistiu As Caças Fantasmas, um filme que eu estava louca para ver, perguntei a ela “é bom?” e ela me disse que é um saco, longo e com piadas sem graça. Minha irmã, mulher, não gostou.

A ideia de fazer um remake do clássico protagonizado por homens era ótima. Um grupo de mulheres engraçadas que caçam fantasmas. Maravilha, afinal ser um caça fantasma não quer dizer que você deve ser homem ou mulher. Porém o filme não fluiu, foi ruim, péssimo roteiro, sei lá. Deu errado. Mas a questão é que deu errado não porque eram mulheres no protagonismo, mas porque o filme era ruim mesmo. Quantos filmes com protagonistas masculinos falham catastroficamente? Vide a Múmia com Tom Cruise.

Protagonismo feminino é fundamental, mas quando é mal feito, deve ser criticado, assim como criticamos os filmes estrelados por homens. Direitos iguais, não é mesmo?

Espero ver mais heroínas no cinema, e espero que os filmes vindouros tenham a qualidade do filme de Patty Jenkins. Esse sim carrega uma tremenda representatividade.

Do teatro puro e absurdo de Ionesco à televisão pura e absurda de David Lynch

O título deste texto parece aqueles que encontramos nas teses de mestrado que lotam os corredores das bibliotecas universitárias. Mas este é apenas um texto curto de uma epifania que surgiu enquanto assistia ao oitavo episódio da nova temporada de Twin Peaks.

Neste semestre, tive aulas de Teatro Francês. Nestas aulas, entrei em contato com inúmeros autores franceses, Victor Hugo, Racine, Edmond Rostand…  e Ionesco, este último foi o autor que mais me marcou.

Eugène Ionesco, nascido na Romênia, passou a maior parte da infância na França e só regressou à terra da baguete para concluir sua tese de doutorado, ano que coincidiu com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Devido à Guerra, permaneceu na França e lá se revelou escritor.

Ionesco é considerado, junto a Beckett, pai do Teatro do Absurdo, um teatro que bebia nas fontes do surrealismo e expressionismo. Sua composição era de elementos chocantes e por diversas vezes ilógicos, que visava causar um desconforto ao reproduzir a sociedade incoerente e absurda da época.

As obras mais famosas de Ionesco são Rhinocéros e La Cantatrice Chauve (A Cantora Careca). Esta última ilustra o absurdo da existência humana e o distanciamento entre as pessoas. Numa determinada cena, marido e mulher descobrem que são realmente casados após uma série de coincidências, como por exemplo, terem o mesmo filho. A peça se passa na Inglaterra e mostra a vida de dois casais, se desenrolando entre as conversas banais que fazem pouco sentido e que são, até mesmo, palavras desarticuladas.

Ionesco dizia que fazia um teatro puro, um teatro que não fornecia muita informação ao espectador. O teatro de Ionesco era o que cada um queria ou entendia ver. Por exemplo, na obra Rhinocéros, todos os personagens se transformam em rinocerontes e isso não é, em momento algum, explicado. Por que rinocerontes? Cada espectador tem a sua teoria.

O teatro puro era desprovido de convenções, era imaginativo e extremamente poético. Eugène rejeitava as estruturas lógicas, o pensamento do teatro tradicional e criava sua própria forma de expressar a existência sem sentido do homem moderno. Se pararmos para analisar La Cantatrice e perguntarmos “sobre o que se trata?” não encontraremos uma resposta na peça em si.

Vendo a mais nova temporada de Twin Peaks, escrita e dirigida por David Lynch, tive a sensação de estar diante de uma obra de Ionesco. Lynch nos trouxe, até agora, oito episódios que revelam muito sobre as relações humanas e que não nos fornecem informação alguma. Esses episódios nos levam a todo tipo de interpretação. Tenho certeza que cada espectador tem a sua – “o que são os lodges presentes em Twin Peaks?”. São episódios que nos mantem colados diante da TV mesmo sem ter a forma convencional, que é responder a todas as necessidade dos espectador. É a TV pura, utilizando a linguagem do teatro, aquela que não mastiga a informação. Não é a toa que Lynch é considerado um diretor de vanguarda,  surrealista, cujas obras ganharam uma denominação específica: Lynchianas.

Lynch e Ionesco criaram obras capazes de nos descolar dos aspectos mais palpáveis da segunda e sétima artes. São autores que instigam nossas mentes com textos e imagens que não são simplesmente absorvidos, mas que são digeridos lentamente com a ajuda de muitos neurônios.

Vê-los é ter certeza de que o Surrealismo contribuiu e contribui em muito para a edificação da criatividade humana.

O Lost Office

É uma piada. Um órgão público que funciona bem mal. Se eu tivesse que compará-lo a um órgão do corpo humano, eu diria que ele se parece com o apêndice, uma soma de células sem utilidade que só sabe inflamar e causar dor e que quando dói demais a gente tem que retirar.

Entramos na Word Wilde Web, chegamos naquele site gringo bacana, com bugigangas que não são vendidas aqui. Um paraíso. Tipo Disney online. Clicamos, clicamos e compramos. As encomendas chegam no Brasil. Elas vêm lá de onde o tal Judas perdeu as suas botas. China, Índia, Hong Kong. Nossas encomendas, aquelas coisinhas bonitinhas, baratinhas e boazinhas que compramos no Mr. Ali, elas vêm de balsa para nossa terra, demoram cerca de 15 dias. Um tempo razoável, afinal elas cruzam o planeta de BAL-SA. Daí, olha só, elas chegam aqui, mais precisamente em Curitiba – por que a receita federal fica lá, me disseram – e lá em Curitiba elas ficam ad eternum. A gente entra no site lostoffice.br para rastreá-las, digita o código RF#$%#$%, lê Curitiba e começa a suar frio.

Pode esquecer! Tudo que você comprou, se foi em duas, três vezes no cartão, não importa, certeza de que quando ela bater na sua porta você já terá quitado sua dívida com as devidas correções monetárias.

Se você quer comprar aquele negócio que treme a barriga – que dizem que emagrece –, e dar de Natal pra sua tia, eu recomendo que a compra seja efetuada em março, no máximo até o finalzinho de abril.

Tudo funciona para causar irritação. É como se o Brasil tivesse um buraco de minhoca lá na Curitiba. Sem explicação.

Porém, há um lado bom nisso tudo. Mas tem? Ah tem! Quando a sua encomenda chegar, por que acredite, ela tarda mas não falha (geralmente), você terá uma enorme surpresa, afinal ela já havia sido esquecida. É o mesmo sentimento de achar 5 reais no bolso da jaqueta.

Espero que neste ano titia ganhe, finalmente, o seu treme-treme no Natal!

O triste fim da graduação

A faculdade é como um gráfico que do sai do ápice e despenca velozmente.

A “curva de felicidade” e empolgação de quem entra é enorme, o contrário quase nunca acontece, a gente chega amando. Compramos aquela camiseta “bixo xxxx”, aquela caneca de plástico da “breja” (somos ecológicos). Tudo lindo. Conhecemos as salas, os computadores (vontade de chorar), os professores, aqueles doutores-sumidades na área.

Na primeira aula, percebemos que o DR. é um grosso, com o ego na lua e pouca vontade de ser professor. Neste ponto, nossa “curva de felicidade” dá uma caidinha. Mas estamos na universidade, só 14% da população tem esse privilégio, e nós chegamos lá! Engolimos o choro e seguimos.

Pra mim, a faculdade foi uma soma de decepções. Nem tudo foi decepção, confesso. Presenciei coisas muito boas, mas foram raras. Das aulas eu absorvi pouco. Poucas me forneceram mais do que meras curiosidades. Os professores não se esforçam, mesmo. Consigo pensar em 2, no máximo 3 que me marcaram. Mas o pior – e tem como ficar pior -, não são as aulas ou os professores, por incrível que pareça. São os alunos, o ambiente. Neste ponto, a minha “curva de felicidade” não existe mais.

Isso parece absurdo, mas a faculdade forma ALIENADOS. Sim, ela forma gente que não consegue entender o mundo fora daquele contexto de coletivos e camaradas. Forma gente que acha que o que é dito dentro daquelas paredes é lei, sem a possibilidade de qualquer questionamento. Os “alunos” (muitos nem frequentam aulas, estão lá para aproveitar tudo que a universidade dá de “graça”) saem por aí repetindo o que ouvem sem questionar, sem analisar. Dá dó.

Pra mim o papel da universidade é incentivar o debate, contribuir para a pluralidade de ideias, mas isso não acontece. Ela forma gente incapaz de pensar. Parece contraditório, né?!

Infeliz realidade.

Começo de ano letivo, vejo aquele pessoal empolgado nos corredores, os calouros, e penso: essa empolgação vai durar um mês.

 

 

 

I saw you, Poland

Do projeto Live Where You Travel da produtora Madrecita Filmes.