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Esperando Bojangles

Assim como a música regravada por Nina Simone, o livro de Olivier Bourdeaut, Esperando Bojangles, é uma poesia ao longo de 124 páginas.

Bourdeaut conta a história de uma família que reside em Paris, cujo dia-a-dia não é nada natural ou mundano. Pai, Mãe e filho vivem uma vida de festas, extravagâncias, fantasias e histórias. Georges, o pai, é o responsável por tentar trazer um pouco de ordem ao caos que a Mãe, uma mulher de inúmeros nomes, cria e envolve toda a família. 

A dança, regida por Miss Simone e Mr. Bojangles, a qual o casal, Georges e Marguerite, Renée, Georgette, se entrega quase todas as noites é maravilhosa aos olhos do filho, que narra a história de forma leve e inocente, mas ao mesmo tempo lúcida.

Esperando Bojangles é uma história de amor que retrata a loucura de forma doce. Bourdeaut acerta ao fazer da criança o narrador dessa fantasia,  o ar infantil é perfeito para tocar em um assunto tão delicado e pesado: a loucura da mãe. Aos olhos da criança, o grave problema que a família passa a enfrentar não é tão grave assim. Para o menino, a doença da mãe passa a ser mais uma aventura com pitadas de incêndios, sequestros e dança.

Esperando Bojangles já está na minha lista de livros favoritos.

Um projeto ousado

A questão por trás da elaboração desse projeto era: “como podemos deixar contemporânea um obra do século 19?”

Escrito em 1830, a obra de Stendhal figura em qualquer lista que elenque os livros que precisamos ler antes de morrer.

O Vermelho e o Negro narra a história de Julien Sorel,  jovem imprevisível e ambicioso que vive na cidade de Verrières. O romance é dividido em duas partes. A primeira conta a vida de Sorel na cidadezinha, já a segunda narra sua ida a Paris. Com personagens intrigantes, Stendhal traz ao leitor as condições econômicas, a situação política e a estratificação social daquela época.

Uma lombada aparente, onde a costura que segura os cadernos do livro ficasse visível, nos pareceu uma boa escolha.

E, embora seja um design rústico, um livro sem lombada não nos remete a um livro antigo, mas a uma obra moderna. E, no Brasil, esse acabamento é bem incomum.

A capa foi desenvolvida por Kiko Farkas e Ana Lobo que souberam criar, apenas com o título da obra, o contraste que estávamos procurando entre a cor vermelha e a preta.

A maior vontade, após toda a elaboração do projeto, era que o livro ficasse confortável e seguro para o leitor. E ficou! A lombada aparente em nada prejudica a leitura, na verdade ela até oferece uma flexibilidade maior, já que a ausência da lombada permite que os cadernos abram 180 graus.

O vermelho e o negro
Stendhal
Tradução: Herculano Villas-Boas
Editora: Martin Claret
ISBN: 978-8544001653

 

 

De amor e trevas

Recentemente li um livro que me tocou muito. Pantera no Porão é uma obra delicada e que, utilizando a visão de um menino de 12 ano, o Prófi, nos mostra um pouco de como foi a ocupação inglesa anos antes da criação do Estado de Israel.

Prófi é um garoto esperto que deseja ver seu país, ainda não formado, livre do invasores britânicos. Ele e mais dois amigos, Ben-Hur e Tchita, formam a POL, uma organização guerrilheira que visa jogar uma bomba no reinado de Jorge VI, lá no parlamento inglês.

A história de Prófi é, não integralmente, uma lembrança da vida de Amós Oz, escritor israelense nascido no ano de 1939 e cuja infância se passou numa Jerusalém de muitos líderes.

Do seu livro De Amor e Trevas, lançado em 2005, surgiu sua autobiografia, mais tarde adaptada para o cinema, que muito me lembrou o jovem Prófi, filho único de um pai escritor e uma mãe amorosa, cujas noites eram marcadas pelo toque de recolher que o governo britânico impunha a todos, fossem judeus ou não. É como se o Profi do livro de 1995 ecoasse na obra dos anos 2000.

Uma infância que por certo ficou muito bem gravada em Oz. E não poderia ser diferente, sua vivência se passou num país onde soldados alheios desfilavam pelas ruas com carabinas a tira-colo, onde o temor de bombas e tanques de guerra era constante.

A criança Amós cresce junto com sua nação, um Estado que se torna independente em 1948 e que nasce para reunir todos os judeus espalhados pelo mundo após inúmeras diásporas e sofrimento.

 

 

Livro no Brasil

Este é a singela opinião de uma pessoa que está no mercado editorial há mais ou menos cincos anos.

Trabalhar em editora nunca foi meu principal objetivo de vida. Eu queria ser cientista, astronauta, arqueóloga, aquelas profissões que apareciam com uma certa frequência no cinema.

Quando estava no ensino médio eu queria fazer história. Influenciada, em parte, por ótimos professores, mas também pelas aventuras de Hercule Poirot na Mesopotâmia, no Nilo.

Descobri que arqueologia, pelo menos no Brasil, não daria em nada e desisti.

Fui para a Letras, que fora do país se chama Fine Arts, uma denominação muito mais digna.

Além da arqueologia, Agatha Christie me despertou a paixão pelos livros e então me descobri em uma carreira.

Trabalhar em editora uniu duas coisas: o amor pelos livros físicos (seu cheiro, a textura do papel, o design) e o amor pelas palavras. Abrir um calhamaço de folhas e entrar numa aventura que a cada página se desdobra em algo inimaginável não tem preço.

Eu amo livros. Carrego um na bolsa, esse eu leio no metrô. Tenho um epub no computador, esse eu leio no almoço. Tenho um exemplar de 500 páginas, esse eu leio em casa.

Mas meu amor pela criação de Gutenberg me deixa um pouco melancólica, às vezes.

No Brasil, é muito complicado pensar em livro, pensar em ter uma editora, pensar em viver disso. Tirando o fato de que a população brasileira não lê com tanta frequência, isso já é incrivelmente desanimador, nós, do mercado editorial, nos deparamos com outra tristeza: as pessoas podem até comprar um livro, mas elas não o lerão.

Fato.

Quantos livros você comprou este ano? Dez? Quantos desses dez você leu? Dois… Três?

Hoje, no Brasil, livro virou artigo de luxo, de colecionador.

Isso não é ruim para o mercado, na verdade isso mantém o meu emprego vivo. Muitos dirão que o importante é que o estoque se esgote, que as livrarias façam pedidos. E de fato, isso é muito importante. O mercado editorial fechou o primeiro semestre de 2017 de forma positiva.

Mas e o outro lado?

As pessoas não leem!

A gente batalha atrás de um super tradutor, uma super revisora e um super prefaciador, todos, em suma, especialistas no autor, na obra, no gênero, no idioma e tudo isso para quê? Meu trabalho vai ficar lindo na sua estante, na sua mesa de centro e só.

O sintoma mais claro dessa “gourmetização” do livro é a exigência dos leitores. Eles querem livros gigantescos e de capa dura. A pobre da brochura foi deixada de lado, confinada nos livros didáticos, aqueles que ninguém lê mesmo.

O livro, aquele amontanhado de papel que serve para te contar algo, precisa ser funcional. E quer um formato mais funcional que o 14×21/brochura? É leve, dobrável e cabe em qualquer bolsa. Tirando o pocket, que é péssimo, pois as letras são miúdas e super condensadas, a brochura é a melhor opção. Nela, conseguimos fazer capas lindas, um trabalho gráfico de primeira, e conseguimos, também, dar conforto ao leitor.

Mas não… O brasileiro não gosta. A primeira pergunta/afirmação que nos fazem é: será capa dura, né?

Nos Estados Unidos, as editoras investem nele, na brochura, no paperback. E as pessoas compram, não apenas por que eles são baratos, a diferença de preço é mínima (uma brochura custa uns 10 dólares, enquanto uma capa dura custa uns 15), mas por que elas leem.

Entrei na Strand, na Barnes & Noble, na loja física da Amazon e vi, na maior parte das prateleiras, as brochuras, as lindas e confortáveis brochuras.

Não me levem a mal, não é que eu não goste de uma capa dura, acho linda. Só a vejo como um sintoma da “não leitura”.

Espero que este nicho que tanto amo supere essa gourmetização, que o Brasil tenha cada vez mais leitores e não somente compradores e que as pessoas entendam que livro deve ser atrativo, bonito, charmoso, mas que sua principal função é nos fazer viajar com as pés no chão, que entendam que livro é, principalmente, para ser lido.

Marvel Comics: a história secreta

Eu ganhei esse livro em 2012, e desde então, tentei lê-lo umas três vezes.

Não por achar sua escrita difícil ou tediosa, mas por que o assunto que Sean Howe trata em sua obra, a história da Marvel, é uma das coisas que mais me fascinam na cultura pop e eu li e reli os parágrafos tentando fazer as conexões dos nomes das empresas, dos desenhistas e editores querendo compreender tudo.

Comecei, pela quarta vez, sua leitura no mês passado.

A história da Marvel é bem complexa. A empresa nasceu em meados de 1934 pelas mãos de Martin Goodman, que na época publicava os pulps, que eram revistinhas em papel barato cuja temática rondava histórias noir, western e ficção científica.

A Marvel era um braço da Timely Publications que se estabeleceu, sob a supervisão de Goodman, em 1939.

Desde 1939, a editora, com sua concorrente Detective Comics já estabelecida no mercado, saiu à procura de roteiristas e desenhistas que pudessem, também, criar super-heróis que competiriam com o sucesso de vendas do Superman, lançado na Action Comics em 1938, Batman etc. Em outubro de 1939 o Tocha-humana fez sua estreia nos pulps tendo como arqui-inimigo Namor, o príncipe submarino.

A sacada da Timely foi, como bem apontou Howe, utilizar como pano de fundo para as aventuras desses seres fantásticos a velha cidade já conhecida e amada pelos leitores daqueles gibis. Tocha Humana e Namor se enfrentavam pelas ruas de Manhattan. Os cenários eram o rio Hudson, o Empire State Bulding, e outros pontos turísticos da grande maçã. Diferente da proposta da DC, a Timely não investia em universo intergaláctico, mas apostava no mundano e acertava, e muito. Ela faturava uns 30 mil dólares com as revistinhas do Tocha e isso era um grande montante, levando em conta que cada exemplar custava, mais ou menos, uns 10 cents.

Grandes nomes vieram ao encontro de Goodman, na época, garotos cursando faculdade de artes ou apenas garotos com talento à procura de uma oportunidade na indústria que fabricava aquilo que eles mais amavam, imaginação. Jack Kirby chegou, Steve Ditko e Stanley Lieber, o Stan Lee, também apareceram. Garotos que aprenderam colocando a mão na massa e se sujeitando a todo tipo de trabalho. Stan Lee começou jovem na Timely, com uns 14 anos, e era o responsável pelo cafezinho, além de ser o office boy. Em suas primeiras histórias, Stan Lee assinou seu nome desta forma por achar que o escrevia no começo da carreira era muito ruim e aquelas tirinhas poderiam sujar sua futura imagem.

Lee cresceu, na vida e na empresa. Kirby e Ditko saíram e voltaram. Outros artistas vieram, como John Romita. Capitão América lutou contra Hitler e deu esperança aos americanos em tempos sombrios. A Guerra-Fria chegou, fez parte de inúmeras histórias e nos presenteou com o Quarteto-Fantástico, cuja inspiração para a criação de um super time saiu da concorrente e sua Liga da Justiça da América. Todo super-herói lutava contra ameaças comunistas.

A primeira história sob o selo Marvel Comics foi do Quarteto, que ganhou sua própria versão do Tocha-Humana, um herói que ressuscitou repaginado.

E a Timely que era uma empresa de um andar cresceu. Sem deixar de passar por quase falências. Entre altos e baixos surgiram Homem-Aranha, Vingadores, Demolidor etc., toda uma gama de super-heróis que encantam até hoje.

Essas histórias que já fascinaram gerações lidavam com questões que faziam muito sentido para a época, como o medo da guerra, o terror nazista. Criaram gerações de leitores que se espelhavam naqueles personagens. Todo mundo queria ser um super-herói, ser correto e fazer sempre o bem.

Gosto de pensar que além da diversão, as histórias em quadrinhos são capazes de ajudar na edificação dos leitores. Sou grata a elas e especialmente à Marvel por ter me presenteado com uma infância divertida, esperançosa e acima de tudo, super-heróica.

 

 

sobre as paixões literárias

É engraçado, mas eles são bem parecidos. Ambos são detetives e de personalidade forte.

Sherlock Holmes é inglês e saiu da cabeça do médico escocês Sir Arthur Conan Doyle em 1886, na história Um Estudo em Vermelho. Sherlock tem como narrador de suas histórias seu inseparável companheiro: Dr. Jonh Watson. Já Hercule Poirot é belga e nasceu da multiescritora Agatha Christie em 1921, no romance O Misterioso Caso de Styles, e também possuí um fiel escudeiro que, muitas vezes, narra suas histórias: o Capitão Arthur Hastings.

Considero Holmes mais inteligente e astuto. Quando leio suas aventuras, sempre imagino que ele já sabe o desfecho da investigação na terceira frase do depoimento do suspeito. Poirot  me parece mais inquieto e gosta de exaltar a si mesmo. Embora o caso seja complicado e ele tenha dificuldade com a resolução, ele sempre a entrega com um ar de “eu já sabia desde o começo”.

As histórias de Poirot e Holmes são aventuras bem simples: um crime acontece e o detetive tem que desvendá-lo. E talvez por isso, frequentemente, os livros de Doyle e Christie sejam encarados como meros Best Sellers, ou livros de Viagem. São poucos os que os veem como “alta literatura” (um termo que detesto). Estas histórias se encaixam no estilo Whodunnit? ou Who Done It? que é o tipo de romance policial onde há inúmeros suspeitos para um crime e a identidade do culpado só é revelada no final da obra.

Dr. John Watson e Sherlock Holmes

Os romances desses grandes escritores podem ter o mesmo formato, podem ser acusados de plágios de si mesmos, mas o que realmente me importa é a sensação que eles causam quando estou lendo. O mistério tem esse dom de te fazer devorar lauda após lauda na esperança de confirmar a sua inteligência. Para mim, uma obra de 200 páginas termina fácil em um dia e meio.

Além desses dois escritores terem nos deixado um legado de histórias incríveis, Agatha Christie escreveu mais de 60 livros, eles influenciaram todo um gênero literário. O romance policial não seria o que é hoje sem Holmes. Maurice Leblanc, Georges Simenon, Hanna-Barbera com Scooby Doo (haha) e a própria Agatha Christie se inspiraram em Conan Doyle para criar suas histórias.

E digo mais, temos uma gama incrível de séries e filmes estreladas pelos dois detetives. Algumas são inspirações como é o caso de Sherlock, Elementary, os filmes de Guy Ritchie, e outras são adaptações mesmo, como as séries da BBC com Poirot e agora a refilmagem de Kenneth Branagh de o Assassinato no Expresso do Oriente, o livro mais famoso da Rainha do Crime.

 

E nós, fãs do romance policial, só temos a ganhar com isso. É muito bom ver que as ideias de Christie e Doyle continuam vivas e rendendo muita trama. Quero ver cada vez mais sherlockes e hercules na TV, no cinema e, também, na literatura.

E aqui fica a dica para algum filmmaker: façam um crossover! Seria maravilhoso ver uma aventura do time Hercule Holmes nas telas do cinema!

 

 

 

 

O Menino Múltiplo na mídia

Abaixo uma matéria sobre o lançamento da primeira obra de Andrée Chedid traduzida no Brasil

Egípcia tem primeiro livro traduzido para o português

‘O Menino Múltiplo’, de Andrée Chedid, ganhou versão em português de Carla de Mojana Renard. Falecida em 2011, escritora nascida no Egito tem mais de vinte prêmios em sua obra.

Tradução do livro foi tese de mestrado de Carla de Mojana di Cologna Renard

São Paulo – A escritora egípcia Andrée Chedid, falecida em 2011, teve seu primeiro livro traduzido oficialmente para o português. Lançado este mês pela editora Martin Claret, “O Menino Múltiplo” (L’Enfant multiple), escrito na década de 1980, está à venda nas principais livrarias brasileiras, traduzido do francês pela brasileira Carla de Mojana di Cologna Renard.

A tradução do livro foi parte da tese de mestrado de Renard, no programa Estudos Linguísticos, Literários e Tradutológicos em Francês da Universidade de São Paulo (USP). “Conheci a Andrée Chedid por meio da obra do seu neto, Matthieu Chedid, um músico conhecido do público francês. Acabei me identificando porque também tenho origens egípcias: minha mãe e meus avós nasceram no país e se mudaram para o Brasil”, contou a tradutora à reportagem da ANBA.

Rapidamente, a jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero que abandonou a carreira para se dedicar à tradução, mergulhou nos livros da escritora, que aborda temas sociais em um estilo literário bem ligado à poesia – até seus romances têm influência poética, segundo Renard. Ao mesmo tempo, acompanhava a obra de Matthieu Chedid, que acabou encontrando, por coincidência, durante um show que o músico francês fez em São Paulo.

“O Matthieu é muito ligado à avó. Eu estava querendo começar a fazer traduções literárias e ele me estimulou a traduzir um livro da Andrée, que ainda não tinha nenhuma obra disponível em português”, conta a tradutora.

Renard conta que, além de prazerosa, a tradução de “O Menino Múltiplo” foi um desafio, uma vez que o estilo da escritora, poético e com certa musicalidade, precisava ser mantido. “A Andrée escrevia com um dicionário ao lado, procurando palavras que dessem um ritmo ao seu texto. Procurei fazer o mesmo na versão em português, buscando a palavra certa para manter a musicalidade. Traduzir não é apenas manter o sentido, é também um ato de criação”, diz a tradutora, que aconselha ler o livro em voz alta.

A história

Segundo Renard, a escolha de “O Menino Múltiplo”, entre toda a obra da autora, se deve pelo fato de o livro ter um pouco a ver com o Brasil. O romance conta a história de Omar-Jo, filho de um pai muçulmano egípcio e uma mãe católica libanesa, falecidos durante a guerra no Líbano, em 1987, após a explosão de um carro-bomba – que também deixa o menino de doze anos sem um dos braços. A tragédia fez com que seu avô, um trovador, o levasse a Paris, onde o encontro do Oriente com o Ocidente mexe com a vida do garoto.

“Embora escrito na década de 80, o texto de Chedid se revelou bem atual. A dura realidade de muitos refugiados no atual cenário que vivemos”, conta Mayara Zucheli, assistente editorial na Editora Martin Claret.

Ela diz que o pessoal da editora ficou atônito com o fato de não existir nenhuma tradução da obra da autora, contemplada com mais de vinte prêmios literários, no Brasil. “A tradutora que entrou em contato conosco e ofereceu a sua tradução”, explica.

Poeta, romancista, novelista e dramaturga, Andrée Chedid tem origem libanesa, mas nasceu no Cairo em 1920. Aos 26 anos se mudou para a capital francesa, onde produziu mais de 40 obras no francês – idioma que aprendeu desde pequena, pois sempre estudou em escola francesa. Dois de seus romances foram adaptados ao cinema: Le sixième jour e L’autre.

A tradução de L’Enfant multiple tem 265 páginas e tiragem inicial de três mil exemplares. Está disponível em livrarias físicas e online a preço de capa de R$ 49,90.

via Agência de Notícias Brasil-Árabe

When Breath Becomes Air

I’ve just finished a book that I wanted to read since the day it was released, When Breath Becomes Air, by Dr. Paul Kalanithi. It is a posthumous work. Paul started the book when he was already with an advanced lung cancer. The diagnosis, as he explains in his book, for this type of cancer is, in the overwhelming majority of cases, terminal. 

The work is extremely poetic, with words of intense sweetness, and I think this is due to the fact that Paul, before studying medicine, graduated in literature from Stanford University.

Reading it, I began to imagine the weight of being a doctor and suddenly to become a patient. The condition of a sick layman is more comfortable because he carries the hope of the unknown, an exit, a miracle, after all, ignorance, in such cases, can be a blessing. But when are you a doctor? The knowledge of all statistics and all existing treatments becomes a burden.

The work is about Paul’s story, how he became a doctor, his years of study, but also about how to face what lies ahead, about not giving up, about continuing to laugh and creating good memories – Paul and his wife Lucy had a little girl in the process – after all we are what we will leave, we are what we will be remembered for. We can face death with denial and fury and let it take care of the last days of our lives, or we can see it as a warning “make the most of it”, leave your mark and, above all, care for those around you, Their suffering will continue for long years after your departure.

An emotional work (I cried several times) and essential. The terminal does not need to be the end, it is possible to continue living in the good memories, in the advice given, in shared laughter and, above all, in irradiated love.

A lecture by Lucy Kalanithi, Paul’s wife, at TED

 

 

Mais de uma luz

Neste fim de semana, fui ao lançamento do livro Mais de uma luz de Amós Oz. O escritor, com seus 77 anos, voou de Israel, lugar onde vive, direto para uma aglomeração de mais de 400 pessoas, embora o evento tivesse sido organizado para 250. O fato de ficar em um avião durante 14 horas, chegar ao Brasil e participar de uma palestra/bate papo abarrotada, com pessoas empoleiradas em escadas, mostra a generosidade de Amós.

Seu livro, Mais de uma luz, é uma junção de 3 ensaios, cujo subtítulo, Fanatismo, fé e convivência no século XXI, resume bem o conteúdo de seus textos. Um tema extremamente atual.

Amós, em sua palestra, nos avisou que possuía a cura para todo tipo de fanatismo e que se pudesse a distribuiria em cápsulas, como um remédio para a doença mais infecciosa e perigosa que enfrentamos. As pílulas de Amós seriam recheadas de um aspecto da personalidade humana que parece ter sido deixado de lado nesses tempos sombrios que vivemos, elas viriam repletas de senso de humor, de risada, da capacidade de rirmos de nós mesmos. Amós diz que nunca viu um fanático rir de si mesmo. Ouvi aquela simples solução com um sorriso de esperança no rosto. Quão simples. Rir de si mesmo é sempre o melhor remédio. Uma pessoa com bom humor nunca está de mal de ninguém. Toda religião tem defeito, afinal são dogmas muito antigos, fundados numa época muito diferente da qual vivemos, e é uma virtude saber reconhecê-los. Se alguém zomba de sua religião, ria.

A lição que Amós me deixou, em seus 40 minutos de fala, ficará marcada. Levarei suas palavras de otimismo para a vida toda, e as críticas vindouras serão acolhidas com muito bom humor. Espero que aquele salão lotado, recheado de diversas crenças, com toda certeza, tenha saído daquela Casa do Povo com o mesmo sentimento que o meu. Se Amós foi capaz de tocar 400 pessoas, então sua obra já terá valido a pena.

O Menino Múltiplo

Andrée Chedid foi poeta, romancista, novelista e dramaturga, nasceu no Egito, em 1920, e lá publicou sua primeira coletânea de poemas: “On the trails of my fancy”. De origem libanesa mudou-se para Paris em 1946 e três anos depois lançou a coletânea Textes pour une figure a primeira obra em sua nova pátria e a precursora das mais de 40 obras que publicaria. A autora teve dois de seus romances adaptados ao cinema – “Le sixième jour” em 1986 com a direção de Youssef Chahine e L’autre em 1991 pelas mãos de Bernard Giraudeau – e, ao longo de sua carreira, foi contemplada com mais de vinte prêmios literários, dentre eles o Goncourt de Nouvelle em 1979, com Les Corps et le temps, e o de Poesia em 2002, pelo conjunto de sua obra. Além de ser uma excelente poetisa e romancista, Chedid também se aventurou na música e compôs letras para o neto, Matthieu Chedid, incluindo Je dis Aime, uma das músicas mais conhecidas do público francófono. Membro honorário da Academia de Letras do Québec, em 2009 a autora foi condecorada como Oficial da Legião de Honra da França e, em 2011, infelizmente nos deixou. A Poesia, segundo ela, guia sua obra, que traz temas relacionados à riqueza do ser humano, à defesa do múltiplo, ao rosto e ao amor.
O romance “O menino múltiplo” será sua primeira obra traduzida em língua portuguesa no Brasil. A obra conta a história de Omar-Jo, filho de pai muçulmano egípcio e mãe católica libanesa, um menino que carrega suas origens no nome e que, durante a guerra do Líbano, em 1987, encontra um destino cruel quando um carro-bomba leva seus pais e seu braço. E o menino de doze anos, então, é enviado pelo avô a Paris. E é lá que ocorre o encontro do Oriente com o Ocidente, do menino-duplo com as luzes, as cores, os sons e os movimentos do Carrossel de Maxime, um senhor rabugento e proprietário da atração que, pouco a pouco, reencontra com o menino, então múltiplo, a alegria de viver. Alteridade, amor e tolerância fazem parte do enredo, poético. A ser lido em voz alta.