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For Filme

Julia Child

Recentemente, numa tarde de molho e com virose em casa, revi o filme Julie e Julia. Nele a personagem principal, Julie, decide, após encontrar-se desgostosa com a própria vida,  cozinhar todas as receitas presentes no livro Mastering the Art of French Cooking, de Julia Child, Simone Beck e Louisette Bertholle. O livro contém 524 receitas e Julie deve executá-las em apenas um ano, 365 dias x 524 receitas.

A ideia de Julie é fantástica. Imagine ter o tempo para, todos os dias, cozinhar as receitas que Julia Child desenvolveu e desmistificou (ela tornou a culinária francesa muito mais acessível). Jantar Boeuf Bourguignon seria maravilhoso, e na noite seguinte um Fricassée de poulet à l’ancienne? Eu nem sei o que é, mas o nome soa magnífico.

Porém, há dois problemas nisso tudo. O primeiro é o tempo. Eu não conheço as receitas do livro, mas imagino que algumas delas sejam trabalhosas, tipo o próprio Bourguignon. Ou seja, a pessoa teria que chegar relativamente cedo em casa e para isso, fugir do caótico trânsito de São Paulo. O segundo problema é: Julie não mora no Brasil. Fazer mercado em Nova York é infinitamente mais barato que aqui. Imagina quanto custa a tal da carne que vai no Bourguignon? Não é carne de segunda, é uma alcatra, que custa, em média, uns 25 reais. Sem chances. Só a carne custa 25, daí tem o vinho tinto (e você não vai querer usar um Sangue de Boi), as cenouras e mais tudo que vai. Essa janta sairá por uns 80 reais, no mínimo. Para a Julie a mesma janta deve sair por uns 25 dólares.

Impensável seguir os passos de Julie e Julia Child. Calculo que ao final do ano estaria quebrada, financeira e fisicamente. A vontade e o paladar eu tenho, só falta o dinheiro e o tempo mesmo.

Recently, in one afternoon of sauce and virose at home, I reviewed the movie Julie and Julia. In it, the main character, Julie, decides, after being displeased with her own life, to cook all the recipes present in the book Mastering the Art of French Cooking, by Julia Child, Simone Beck, and Louisette Bertholle. The book contains 524 recipes and Julie must run them in just one year, 365 days x 524 recipes.

Julie’s idea is fantastic. Imagine having the time to, every day, cook the recipes that Julia Child developed and demystified (she made French cooking much more accessible). Dinner Boeuf Bourguignon would be wonderful, and the next night a Fricassée de poulet à l’ancienne? I do not even know what it is, but the name sounds magnificent.

But there are two problems in all this. The first is time. I do not know the recipes of the book, but I imagine some of them are laborious, like Bourguignon himself. That is, the person would have to arrive relatively early at home and for that, to escape the chaotic traffic of São Paulo. The second problem is: Julie does not live in Brazil. Making a market in New York is infinitely cheaper than here. Can you imagine how much it costs for the meat that goes on Bourguignon? It is not second-rate meat, it is a rump steake, which costs, on average, about 25 reais. No chances. Only the meat costs 25, so there’s the red wine (and you will not want to use Sangue de Boi), the carrots and everything else that goes. This dinner will be about 80 reais, at least. For Julie, the same dinner should come out for about 25 dollars.

Unthinkable to follow in the footsteps of Julie and Julia Child. I estimate that by the end of the year I would be broken financially and physically. The will and the taste I have, all I need is money and time.

De amor e trevas

Recentemente li um livro que me tocou muito. Pantera no Porão é uma obra delicada e que, utilizando a visão de um menino de 12 ano, o Prófi, nos mostra um pouco de como foi a ocupação inglesa anos antes da criação do Estado de Israel.

Prófi é um garoto esperto que deseja ver seu país, ainda não formado, livre do invasores britânicos. Ele e mais dois amigos, Ben-Hur e Tchita, formam a POL, uma organização guerrilheira que visa jogar uma bomba no reinado de Jorge VI, lá no parlamento inglês.

A história de Prófi é, não integralmente, uma lembrança da vida de Amós Oz, escritor israelense nascido no ano de 1939 e cuja infância se passou numa Jerusalém de muitos líderes.

Do seu livro De Amor e Trevas, lançado em 2005, surgiu sua autobiografia, mais tarde adaptada para o cinema, que muito me lembrou o jovem Prófi, filho único de um pai escritor e uma mãe amorosa, cujas noites eram marcadas pelo toque de recolher que o governo britânico impunha a todos, fossem judeus ou não. É como se o Profi do livro de 1995 ecoasse na obra dos anos 2000.

Uma infância que por certo ficou muito bem gravada em Oz. E não poderia ser diferente, sua vivência se passou num país onde soldados alheios desfilavam pelas ruas com carabinas a tira-colo, onde o temor de bombas e tanques de guerra era constante.

A criança Amós cresce junto com sua nação, um Estado que se torna independente em 1948 e que nasce para reunir todos os judeus espalhados pelo mundo após inúmeras diásporas e sofrimento.

 

 

sobre as paixões literárias

É engraçado, mas eles são bem parecidos. Ambos são detetives e de personalidade forte.

Sherlock Holmes é inglês e saiu da cabeça do médico escocês Sir Arthur Conan Doyle em 1886, na história Um Estudo em Vermelho. Sherlock tem como narrador de suas histórias seu inseparável companheiro: Dr. Jonh Watson. Já Hercule Poirot é belga e nasceu da multiescritora Agatha Christie em 1921, no romance O Misterioso Caso de Styles, e também possuí um fiel escudeiro que, muitas vezes, narra suas histórias: o Capitão Arthur Hastings.

Considero Holmes mais inteligente e astuto. Quando leio suas aventuras, sempre imagino que ele já sabe o desfecho da investigação na terceira frase do depoimento do suspeito. Poirot  me parece mais inquieto e gosta de exaltar a si mesmo. Embora o caso seja complicado e ele tenha dificuldade com a resolução, ele sempre a entrega com um ar de “eu já sabia desde o começo”.

As histórias de Poirot e Holmes são aventuras bem simples: um crime acontece e o detetive tem que desvendá-lo. E talvez por isso, frequentemente, os livros de Doyle e Christie sejam encarados como meros Best Sellers, ou livros de Viagem. São poucos os que os veem como “alta literatura” (um termo que detesto). Estas histórias se encaixam no estilo Whodunnit? ou Who Done It? que é o tipo de romance policial onde há inúmeros suspeitos para um crime e a identidade do culpado só é revelada no final da obra.

Dr. John Watson e Sherlock Holmes

Os romances desses grandes escritores podem ter o mesmo formato, podem ser acusados de plágios de si mesmos, mas o que realmente me importa é a sensação que eles causam quando estou lendo. O mistério tem esse dom de te fazer devorar lauda após lauda na esperança de confirmar a sua inteligência. Para mim, uma obra de 200 páginas termina fácil em um dia e meio.

Além desses dois escritores terem nos deixado um legado de histórias incríveis, Agatha Christie escreveu mais de 60 livros, eles influenciaram todo um gênero literário. O romance policial não seria o que é hoje sem Holmes. Maurice Leblanc, Georges Simenon, Hanna-Barbera com Scooby Doo (haha) e a própria Agatha Christie se inspiraram em Conan Doyle para criar suas histórias.

E digo mais, temos uma gama incrível de séries e filmes estreladas pelos dois detetives. Algumas são inspirações como é o caso de Sherlock, Elementary, os filmes de Guy Ritchie, e outras são adaptações mesmo, como as séries da BBC com Poirot e agora a refilmagem de Kenneth Branagh de o Assassinato no Expresso do Oriente, o livro mais famoso da Rainha do Crime.

 

E nós, fãs do romance policial, só temos a ganhar com isso. É muito bom ver que as ideias de Christie e Doyle continuam vivas e rendendo muita trama. Quero ver cada vez mais sherlockes e hercules na TV, no cinema e, também, na literatura.

E aqui fica a dica para algum filmmaker: façam um crossover! Seria maravilhoso ver uma aventura do time Hercule Holmes nas telas do cinema!

 

 

 

 

Blade Runner (english version)

The first time that I saw Blade Runner was in 2000 and something. Over the past year I’ve watched it again and this time it was the Final Cut. The film features three versions, Theatrical Cut, which was the version released in theaters in 1982, the Director’s Cut, the version designed by Ridley Scott and the Final Cut, the version released on the 2007 Special DVD.

The Final Cut or the Director’s Cut are the versions worth seeing. They do not have the final scene that the studios forced Ridley Scott to add. They thought that if the movie ended the way Scott had idealized, people wouldn’t understand.

For me, it is a little challenging to write about movies because I do not know the technical terms and my experience is the one from a simple viewer. So I write about banal impressions of someone who really enjoys the seventh art.

In 1982 Ridley Scott created a masterpiece inspired by Philipe K. Dick’s book, Do androids dream of electric sheep? which became the percussion of a film genre, the sci-fi noir. That kind of sci-fi present in films depicting dystopian futures, such as Toral Recall and so many others.

Blade Runner takes place in 2019 and recounts the hunt of Detective Deckard, who is summoned to exterminate deserting droids, the Replicants, who fled after a rebellion. These replicants, belonging to the Nexus 6 generation, are extremely similar to human beings despite possessing great physical strength and above-average intelligence.

The movie may seem more like a police thriller, with a man vs. machine battle, but it goes way beyond. Scott’s work deals with the condition that humanizes us all, the possibility of death, and the feeling of wanting to overcome it. After all, what these replicants want is to find their creator, Tyrell, and force him to give them more time to live. As a human supplication before the creator, god, ala, and so on.

The film has one of the most incredible monologues in film history, the last scene of the replicant Roy: “I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die”.

The experiences of these machines evaporate just like the human ones when the hour of death arrives.

The sequel, Blade Runner 2049, hit theaters with many questions. Was Denis Villeneuve’s film the height of its precursor? And the answer is yes.

The story takes place thirty years later and explores a small spit from the first film, the uniqueness of the Replicant Rachel. Rachel, according to Tyrell himself, was one of a kind. She would not expire in 4 years like Roy.

In 2049 the new replicants are integrated into society and do jobs that no longer compete to humans, such as being a detective. K is a new Android model and works eliminating old models that are still on the loose. In his hunt, he is faced with the bone of a replicant who died giving birth, something unthinkable. K then begins to search for the child who was born from this replicant.

K’s guessing, he thinks and wants to be this child, also expresses the eagerness of the androids in search of aspects that make them human, that is, own memories, family, and a singularity that take them from the condition of mere tools of work.

The sequel of Blade Runner does not spoil Scott’s work, it delicately completes a story that we imagined did not need continuity or explanation.

It is foreseeable to think that Blade Runner 2049 will play the same role as Blade Runner 2019, to be a milestone in film history.

Blade Runner

A primeira vez que assisti Blade Runner foi em 2000 e alguma coisa. Ano retrasado assisti novamente e dessa vez vi o Final Cut. O filme possuí três versões, a Theatrical Cut, versão que foi para os cinemas no ano de lançamento, em 1982, a Director’s Cut, a versão idealizada pelo diretor, Ridley Scott e a Final Cut, a versão lançada no DVD Especial de 2007.

A Final Cut  ou a Director’s Cut são as versões que valem a pena ver. Elas não têm a cena final que os estúdios obrigaram Ridley Scott a adicionar. Eles acharam que se o filme acabasse do jeito que Scott havia idealizado, as pessoas não entenderiam nada.

Para mim, é um pouco desafiador escrever sobre cinema pois desconheço termos técnicos e minha experiência é a de uma simples telespectadora. Por isso eu escrevo sobre impressões banais de alguém que curte muito a sétima arte.

Em 1982 Ridley Scott criou uma obra prima inspirada no livro de Philipe K. Dick, Androides sonham com ovelhas elétricas?, que se tornou a percussora de um gênero fílmico, o sci-fi noir. Aquele sci-fi presente em filmes que retratam futuros distópicos, como Vingador do Futuro e tantos outros.

Blade Runner se passa em 2019 e narra a caçada do detetive Deckard, que é intimado a exterminar androides desertores, os Replicantes, que fugiram após causarem uma rebelião. Esses replicantes, pertencentes a geração Nexus 6, são extremamente parecidos com os seres-humanos apesar de possuírem grande força física e inteligência acima da média.

O filme pode parecer mais um thriller policial, com uma batalha homem versus máquina, mas ele vai muito além. A obra de Scott trata da condição que humaniza a todos, a possibilidade da morte e o sentimento de querer superá-la. Afinal, o que esses replicantes querem é encontrar o seu criador, Tyrell, e lhe impor que ele lhes forneça mais tempo de vida. Como uma suplica humana perante o criador, deus, ala etc.

O filme tem um dos monólogos mais incríveis da história do cinema, a última cena do replicante Roy: “I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die”.

As experiências e vivências dessas máquinas se evaporam assim como as humanas quando a hora da morte chega.

A continuação, Blade Runner 2049, chegou aos cinemas com muitos questionamentos. Estaria o longa de Denis Villeneuve a altura do seu precusor? E a resposta é sim.

A história se passa trinta anos depois e explora um pequeno espeto do primeiro filme, a singularidade da Replicante Rachel. Rachel, segundo o próprio Tyrell, era única. Ela não expiraria em 4 anos como Roy.

Em 2049 os novos replicantes estão integrados à sociedade e fazem trabalhos que não competem mais aos seres humanos, como o de um detetive. K é um novo modelo de androide e trabalha eliminando antigos modelos que ainda estão à solta. Em sua caçada ele se depara com a ossada de um replicante que morreu ao dar à luz, algo impensável. K, então, começa a buscar pela criança que nasceu desta replicante.

A história de 2049 é desenvolvida a partir de uma ponta solta da versão de 1982. O relacionamento entre Deckard e Rachel, algo minimamente explorado por Ridley Scott. Rachel engravida e isso a aproxima mais ainda do que é ser humano, a possibilidade de gerar “vida”.

O achismo de K, ele pensa e quer ser essa criança, também expressa a ânsia dos androides em busca de aspectos que o tornem humanos, ou seja, lembranças próprias, família, e uma singularidade que os tirem da condição de meras ferramentas de trabalho.

A sequência de Blade Runner não estraga o trabalho de Scott, ela completa de maneira delicada uma história que imaginávamos não precisar de uma continuidade ou explicação.

É previsível pensar que Blade Runner 2049 cumprirá o mesmo papel de Blade Runner 2019, a de ser um marco na história do cinema.

 

 

 

Dois filmes

Recentemente vi dois filmes que me surpreenderam.

Blue Jay, um filme de dois personagens. Namorados da épeoca de colégio que se reecontram na pequena cidadezinha onde nasceram. Duas pessoas que parecem perfeitas juntas, mas que seguiram caminhos separados. O relacionamento de Jim e Amanda não deu certo e só compreendemos os motivos desta separação ao final da obra.

Este é mais um daqueles filmes cunhado na excelente construção do diálogo. Conseguimos entender as frustações dos personagens conforme Jim e Amanda confessam um ao outro os rumos que suas vidas tomaram.

Filmado em preto e branco. Roteiro original de Mark Duplass.

This Beautiful Fantastic é a versão inglesa de Amélie Poulain. É a história de Bella Brown, uma jovem orfã que sonha ser escritora e cuja personalidade beira a obsessão compulsiva. Bella mantém tudo organizado e limpo, perfeitamente. Seu jardim, por outro lado, é uma desorganização total. E deste jardim bagunçado nasce uma amizade entre Bella e seu vizinho rabugento, Alfie. Assim como Amélie, Bella muda a vida das pessoas ao seu redor e, neste processo, acaba tornando-se alguém melhor também.

 

Representatividade feminina

É claro que a representatividade feminina é importante. A existência de filmes com super heroínas é fundamental, ainda mais no papel de protagonistas. Toda criança que vai ao cinema assistir homem-aranha, superman, sai da sala escura sentindo-se capaz de ser aquilo que viu, de crescer e, quem sabe, ser um super herói. Mas e as meninas? Aonde elas se encaixavam? Hoje, felizmente, há esse papel para elas. Mulher Maravilha chegou e fez bonito. Agora toda garotinha sairá do cinema sentindo-se uma wonder woman também.

A representatividade é fundamental, mas não deve estar atrelada à santificação. O filme com Gal Gadot fez sucesso por que é bom. Se fosse um saco, não teria feito. Isso não é boicote, é justiça.
É errado colocar a culpa de uma péssima bilheteria na direita, nos conservadores, nos católicos, nos judeus.

Recentemente, minha irmã assistiu As Caças Fantasmas, um filme que eu estava louca para ver, perguntei a ela “é bom?” e ela me disse que é um saco, longo e com piadas sem graça. Minha irmã, mulher, não gostou.

A ideia de fazer um remake do clássico protagonizado por homens era ótima. Um grupo de mulheres engraçadas que caçam fantasmas. Maravilha, afinal ser um caça fantasma não quer dizer que você deve ser homem ou mulher. Porém o filme não fluiu, foi ruim, péssimo roteiro, sei lá. Deu errado. Mas a questão é que deu errado não porque eram mulheres no protagonismo, mas porque o filme era ruim mesmo. Quantos filmes com protagonistas masculinos falham catastroficamente? Vide a Múmia com Tom Cruise.

Protagonismo feminino é fundamental, mas quando é mal feito, deve ser criticado, assim como criticamos os filmes estrelados por homens. Direitos iguais, não é mesmo?

Espero ver mais heroínas no cinema, e espero que os filmes vindouros tenham a qualidade do filme de Patty Jenkins. Esse sim carrega uma tremenda representatividade.

Do teatro puro e absurdo de Ionesco à televisão pura e absurda de David Lynch

O título deste texto parece aqueles que encontramos nas teses de mestrado que lotam os corredores das bibliotecas universitárias. Mas este é apenas um texto curto de uma epifania que surgiu enquanto assistia ao oitavo episódio da nova temporada de Twin Peaks.

Neste semestre, tive aulas de Teatro Francês. Nestas aulas, entrei em contato com inúmeros autores franceses, Victor Hugo, Racine, Edmond Rostand…  e Ionesco, este último foi o autor que mais me marcou.

Eugène Ionesco, nascido na Romênia, passou a maior parte da infância na França e só regressou à terra da baguete para concluir sua tese de doutorado, ano que coincidiu com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Devido à Guerra, permaneceu na França e lá se revelou escritor.

Ionesco é considerado, junto a Beckett, pai do Teatro do Absurdo, um teatro que bebia nas fontes do surrealismo e expressionismo. Sua composição era de elementos chocantes e por diversas vezes ilógicos, que visava causar um desconforto ao reproduzir a sociedade incoerente e absurda da época.

As obras mais famosas de Ionesco são Rhinocéros e La Cantatrice Chauve (A Cantora Careca). Esta última ilustra o absurdo da existência humana e o distanciamento entre as pessoas. Numa determinada cena, marido e mulher descobrem que são realmente casados após uma série de coincidências, como por exemplo, terem o mesmo filho. A peça se passa na Inglaterra e mostra a vida de dois casais, se desenrolando entre as conversas banais que fazem pouco sentido e que são, até mesmo, palavras desarticuladas.

Ionesco dizia que fazia um teatro puro, um teatro que não fornecia muita informação ao espectador. O teatro de Ionesco era o que cada um queria ou entendia ver. Por exemplo, na obra Rhinocéros, todos os personagens se transformam em rinocerontes e isso não é, em momento algum, explicado. Por que rinocerontes? Cada espectador tem a sua teoria.

O teatro puro era desprovido de convenções, era imaginativo e extremamente poético. Eugène rejeitava as estruturas lógicas, o pensamento do teatro tradicional e criava sua própria forma de expressar a existência sem sentido do homem moderno. Se pararmos para analisar La Cantatrice e perguntarmos “sobre o que se trata?” não encontraremos uma resposta na peça em si.

Vendo a mais nova temporada de Twin Peaks, escrita e dirigida por David Lynch, tive a sensação de estar diante de uma obra de Ionesco. Lynch nos trouxe, até agora, oito episódios que revelam muito sobre as relações humanas e que não nos fornecem informação alguma. Esses episódios nos levam a todo tipo de interpretação. Tenho certeza que cada espectador tem a sua – “o que são os lodges presentes em Twin Peaks?”. São episódios que nos mantem colados diante da TV mesmo sem ter a forma convencional, que é responder a todas as necessidade dos espectador. É a TV pura, utilizando a linguagem do teatro, aquela que não mastiga a informação. Não é a toa que Lynch é considerado um diretor de vanguarda,  surrealista, cujas obras ganharam uma denominação específica: Lynchianas.

Lynch e Ionesco criaram obras capazes de nos descolar dos aspectos mais palpáveis da segunda e sétima artes. São autores que instigam nossas mentes com textos e imagens que não são simplesmente absorvidos, mas que são digeridos lentamente com a ajuda de muitos neurônios.

Vê-los é ter certeza de que o Surrealismo contribuiu e contribui em muito para a edificação da criatividade humana.

Romance nos anos 80 e 90

Gosto muito do gênero comédia romântica. Ele não é o meu gênero favorito pois com relação ao cinema eu acho que não tenho um gênero favorito. Mas a comédia romântica dos anos 80 e 90 é espetacular!

A trilha sonora desses filmes é maravilhosa e a sutileza dos diálogos é impressionante. Consigo lembrar de três, que inclusive revi recentemente, When Harry met Sally, You’ve got mail e Sleepless in Seattle. Os diálogos desses filme são fantásticos, especialmente os do primeiro.

When Harry met Sally é aquele tipo de filme que passeia por Nova York,  — e eu gosto muito disso —, é um filme novaiorquino, que parece ter sido dirigido por Woody Allen.

O filme explora um relacionamento que sai da catástrofe, passa por uma amizade verdadeira e culmina em um lindo romance. Duas pessoas de personalidades totalmente diferentes, Harry e Sally, que se conhecem, que se detestam e que, por ironias da vida, acabam juntas.

O filme retrata o que é estar, ter e querer um relacionamento da forma mais normal e mundana possível. É um filme sobre pessoas reais com situações reais, ou seja, Sally poderia ser a garota com a qual você trabalha.

E eu gosto muito disso. Até na literatura, esse tipo de história me prende, são aquelas possíveis, aquelas que poderiam acontecer comigo ou com qualquer outra pessoa.

Que o século XXI tenha mais filmes assim, leves. E por favor diretores e roteiristas, frequentem as aulas do sr. Allen.

 

Música é roteiro

Toda vez que assisto um filme, seja do gênero que for, eu presto bastante atenção na trilha sonora. Algumas são puramente instrumentais, é o caso da maior parte dos filmes de ficção científica, como A Chegada, 2001. Mas a maior parte dos filme que vejo pertencem ao romance e à comédia, muitos são os chamados filmes “indie” e as trilhas sonoras desses, em particular, tendem a ser ótimas.

Recentemente vi dois filmes que se encaixam neste gênero, Away we go, um filme de Sam Mendes e The Hollars, filme de John Krasisnki. Ambos soundtracks são excelentes e de certa forma, ajudam a construir a narrativa do filme. A trilha de Away we go pertence, basicamente, a Alexi Murdoch e a sua música Wait, que é tocada na cena final, ajuda a compor e a expressar a densidade de sentimentos da personagem principal. Ela, Verona, se vê, finalmente, no lugar certo, depois de uma grande viagem pelos EUA em busca de um lar ideal onde pudesse criar o filho prestes a nascer. A letra de Murdoch diz:

Feel I’m on the verge of some great truth
Were I’m finally in my place
But I’m fumbling still for proof
And it’s cluttering my space
Casting shadows on my face

O lugar que Verona “encontra” é a casa onde viveu durante a infância, antes de perder os pais em um acidente. Verona finalmente está em seu lugar, em seu lar.

A cena com a música é essa:

Impossível assistir e não se emocionar. Agora imagine assistir sem a música, não emocionaria da mesma forma.

No filme The Hollars, há uma cena onde o personagem de Krasinski encontra o lugar onde brincava na infância. Nesta hora a música de fundo é a Another Story, da banda The Head and the Heart. E a letra diz:

These are just flames
Burning in your fireplace
I hear your voice and it seems
As if it was all a dream
I wish it was all a dream

Can we go on like it once was

Mais uma vez o sentimento do personagem é contado com a ajuda da música, John Hollar volta pra cidade onde cresceu, revê a família, a namorada da infância e tem que lidar com a doença da mãe. Ele encontra o balanço onde brincava e o que passa por sua cabeça é: “tudo não pode ser como era?”. Afinal, na infância as coisas são bem mais fáceis.

Dois filmes excelentes com trilhas sonoras fundamentais para fazer deles o que são:  duas grandes jornadas na direção do autoconhecimento e do encontro daquilo que falta.

Filme e música é igual a pão com manteiga, combina demais!

 

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