Archive

For Escrevendo

Contramão

O táxi amarelo indicava a cidade. E mesmo que pensasse estar no Rio de Janeiro, o som que saia das bocas dos transeuntes já lhe avisava: “Você está mesmo em Nova York!”. Pensamento engraçado e meio bobo. Confabulou se a mesma cor do táxi era algum tipo de ligação entre as duas cidades, algum pacto da engenharia de trânsito. Não soube dizer e ficou com preguiça de pesquisar no google.

Nina largou as malas no hotel e correu para a rua, precisava respirar aquele ar, um cheiro que só aquela cidade possuía. O aroma nova-iorquino é uma soma de muitos odores e perfumes, a fumaça que escapa dos escapamentos dos carros; o ar que sai dos buracos do metrô; a pizza sendo assada; o café sendo passado. Eles se encontram e nos agraciam. Não é ruim, nem bom, é o que é.

A primeira parada foi para comer o que vinha salivando em sua boca desde a saída do Brasil. Um cheesecake, qualquer um. Pararia na primeira lanchonete e lá largaria quatro, cinco dólares com satisfação.

Na esquina, ao lado do hotel, havia um dinner, desses que a gente vê em filme, xicara branca, estofado vermelho. Lá se sentou e pediu a torta cor de creme. Era deliciosa, como imaginou que seria. Sozinha, sentiu-se feliz por não ter que dividir aquilo com alguém.

De olho no cheesecake até o fim não reparou que na ponta da sua mesa repousava um livro. Não era seu. Não viu quem deixara ali. “O livro estava aqui, todo esse tempo?”, pensou. O cheesecake havia tomado toda a sua atenção. Até aquele momento.

Pegou-o na mão. Era um romance noir. Folhou. Leu a quarta capa. Se interessou. O livro era uma brochura, sua capa era mole, mas ele tinha duas orelhas, numa delas repousava a foto do autor orgulhoso – alguém que imaginou que enriqueceria vendendo sua história –, na outra orelha estava um nome e um telefone, “o dono do exemplar”, pensou.

“Vou leva-lo comigo e tentar entrar em contato com essa pessoa”, pensou alto. O livro, porém, atiçou sua curiosidade. A capa, ao estilo Walter Popp, era interessante e convidativa. Começou a leitura quando conseguiu pegar o metrô, a caminho do Central Park.

Num banco do parque, aproveitou e leu mais algumas páginas. Sequer notou aquela paisagem de outono que começava a colorir de laranja o chão por onde as bicicletas, os patins, os tênis passavam.

A história, que prendeu Nina, era sobre uma moça, Susan, que ia ao encontro de um detetive, Jacob, e lhe pedia ajuda. Susan buscava um artefato raro, que fora roubado por uma gangue local. A busca por tal artefato já havia causado a morte de inúmeras pessoas. Jacob era a última esperança de Susan. “Uma cópia barata de O Falcão Maltes”, pensou.

A tal cópia barata a encantou de maneira surreal. Era aquele tipo de livro que te suga, que te faz devorar as páginas em busca da conclusão e que te faz implorar para que a história não chegue ao fim.

O romance noir parecia mágico. Fez Nina ignorar Nova York e agora, estava mexendo com a sua cabeça. Começara a ser perceber como Susan, a protagonista. Era loira como Susan, era insistente como Susan. Mas só isso. Nada além de uma corriqueira coincidência.

Voltando para o Hotel pensou “preciso devolver este livro”, Glover, o nome rabiscado na orelha “Deve estar a sua procura”.

O fato é que ela não conseguia, queria terminar a história que era bem longa, em torno de umas quinhentas páginas.

O livro estava arruinando sua viagem, não saia mais do hotel e quando saia, sentava-se em algum banco e ficava lá, lendo.

Nova York havia perdido esta batalha. Fora ignorada pelo romance noir, gênero que se consagrou em suas entranhas. A história era mais interessante que a grande maçã.

Susan, Jacob e o enredo, uma cópia de Dashiel Hammett, custaram dez mil reais, o valor que Nina havia investido em sua viagem.

Photo by Charisse Kenion on Unsplash

Cada canto um conto

Gosto muito de escrever. Não importa o quê.

Ficção, realidade, texto sobre um filme, sobre um livro, sobre uma situação, sobre meus gatos. Enfim, qualquer coisa.

Meus textos são curtos, nunca consegui levá-los à quarta página. Mas não acho que isso seja um defeito, apenas um jeito de lidar com as palavras. Lovecraft nunca escreveu romances, apenas contos.

Pensei em juntar duas paixões, escrever e viajar. Criei pequenos textos — não sei se posso considerá-los contos — sobre cada lugar que visitei. Não foram muitos, mas foram especiais.

São cinco ficções que se passam em cinco cidades. Postarei uma a cada semana.

Photo by Aaron Burden on Unsplash

 

 

A Nina e o Tony

Tenho dois gatos. Nina e Tony. A Nina tem uns 2 anos e o Tony uns 3.
A Nina chegou primeiro. Minha irmã a encontrou na internet, através de uma senhora que resgatou ela, a mãe e mais dois irmãozinhos. A Nina foi a única que sobrou depois que todos foram adotados. Eu não entendia o porquê. Ela era tão pequena e assustada quando chegou. Tinha uns 3 meses e era uma fofura. Ah, há um detalhe nesta história, ela chegou pra gente como macho, não sei se vocês sabem, mas é muito difícil ver o gênero dos gatos quando eles são muito novinhos e a senhora que cuidava dela achou que era um machinho.
Quando a levei tomar vacina e castrar, descobri que era uma menininha. A minha cara de espanto chocou a veterinária. Acho que fiz a cara de um pai que descobre que vai ter quíntuplos na hora do parto.
Não me levem a mal, nada contra ter uma gata, mas ela já estava há uma semana em casa, já tinha um nome masculino e a gente a tratava como “O” gato. Foi peculiar.
A Nina tem vários apelidos, e eu vou colocar alguns aqui, com esses apelidos vocês vão descobrir a personalidade dela. Vamos lá: Nininha, Ninoca, Lúcifer, Jizanthapus (vejam o vídeo e entendam o porquê). Estes dois últimos apelidos refletem muito bem a personalidade da Nininha. Ela ODEIA a gente. Eu penso nisso rindo, pois ela tem uma cara tão fofa, ela é tão macia e peluda. Mas as minhas mãos não são mais o que eram, depois da Nina parece que eu as coloquei dentro de um liquidificador. Já não sinto dor quando ela me arranha.
Vamos ao Tony. O Tony está em casa já tem uns 15 dias. Ele era um gato de rua que começou a rondar a minha casa depois que a Jizanthapus chegou. Como meu pai tinha uma forte resistência em pegar mais um gato, eu passei a alimentá-lo pela janela do meu quarto. Ele sempre aparecia no mesmo horário, 7 e meia da noite, um gato pontual. Isso durou muitos meses. Uns dias atrás, minha irmã, passando pela frente do prédio ao lado de nossa casa, avistou Tony fuçando o lixo dos condôminos. Aquilo me deixou bolada. Avisei meu pai que o pegaria de qualquer jeito.
Tony chegou! Miou mais do que podia. Levei ao veterinário e a esperança que ele tinha em ter um romance com Ninoca foi pro brejo.
Tony é o oposto da Nina. Ele mia quando não recebe carinho. É só chegar perto e ele já deita à espera de mimos. Não arranha, não morde. É um amor. Acho que ele é assim por entender as adversidades da vida, deve ter sofrido um bocado na rua. Ao contrário da madame que desde os seus 3 meses come atum dentro de casa.
Os dois até que se dão bem. Quando acolhi o Tony eu pensei “se ferrou little lúcifer, vai ter que dividir o teto e a comida com mais um”. E eu cheguei a achar que ela mudaria, seria mais carinhosa vendo que está em competição com o Tony.
Tony parece ser grato pelo teto que o acolheu. Jizanthapus segue nos odiando e fatiando a minha mão.

As peças:

 

O Peso ou a Leveza?

Acabei de ler A insustentável leveza do ser de Milan Kundera. O livro começou meio morno e um pouco desestimulante, mas se o leitor persistir na leitura, como foi o meu caso, vai se deparar com uma história bem interessante páginas à frente. Kundera conta a história de quatro pessoas em uma Praga que se encontra em meio a uma invasão russa, onde a União Soviética entra, toma conta e instaura o comunismo. Tomas, Tereza, Sabina e Franz vivem no meio desse turbilhão de acontecimentos, exército nas ruas, censura e o principal: suas vidas pessoais, carregadas de marcas de um passado não muito distante, de encontros e desencontros, de amores, de sexo etc.

Kundera usa a vida desse quatro personagens para divagar sobre a dicotomia do peso e da leveza. O que é melhor? O que faz mais sentido na vida? O peso que te puxa como uma âncora, que te finca como raiz, estabelece sua vida e dá sentido a ela? Ou a leveza, que te torna irreal, mas livre?

“Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?” (Kundera)

Uma obra que nos faz refletir sobre nossa própria existência e imaginar o que escolheríamos, ser o peso ou a leveza.

Salvar

Pequenos textos

Faz calor

A saliva desce quase seca, faz calor como nunca fez, e a verdade é que essa é a primeira impressão de qualquer sensação térmica – juro que hoje é, por certo, o dia mais quente do ano! Essa frase será ouvida novamente pelo menos umas dez vezes ao longo de todo verão… bem, realmente faz calor hoje e o que eu queria mesmo era um copo de coca-cola bem gelada, daquelas que descem goela a baixo rasgando a garganta… Se bem que pra mim não precisaria nem ser a coca, mas a concorrente do tal comercial “pode ser?” também cairia bem agora…
Goles depois e eu continuo afirmando que faz calor… Ainda bem que apenas está calor e não é calor – paro um momento e agradeço ao português por ter essa pequena e milagrosa distinção desses dois verbos, e penso nos americanos que são o calor o tempo todo…

 

Padoca: pizza e pingado

É só chegar e sentar. São assim as padarias paulistanas. Tem o balcão que vende o pãozinho, e também a cadeirinha elevada numa bancada, que deixa o cliente de frente para aquele pedaço de pizza com a mussarela (é assim que está no menu na padoca da esquina, e confesso que acho mais charmoso) que já derreteu e agora meio durinha samba no azeite. Sempre tem dois senhores sentados no canto jogando gamão, ou um casal discutindo a relação em meio a dois copos de chopps e um pouco de calabresa com cebola fatiada. O pão quase nunca é oco, e tem aquele miolo pecaminoso, uma bomba de carboidrato pronta para se fundir com a manteiga que derrete sem dó. O café com leite é o famoso pingado e vem naqueles copinhos que só existem nesses lugares, estiloà lá boteco. Dizem que esse é o modelo da padaria no Rio de Janeiro e que os paulistanos apenas agregaram essa aparência peculiar a sua padoca. Eu não saberia dizer se o que “eles” dizem está correto, mesmo porque, nunca estive no Rio. Só sei que a padoca que cresci frequentando era assim, pra mim, a típica padoca paulistana, com cheiro de café recém passado e pizza fria, que às vezes pode até ser uma portuguesa, por que não?

 

Salvar