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Ebbets Field

Arnold, hoje com 74 anos, era apenas um garoto de dez quando saia do pequeno apartamento no qual a família morava, descia correndo as escadas de incêndio e tocava a campainha do prédio ao lado. “Tio Ben, vamos! Está quase na hora!”.

O caminho até o Ebbets Field era percorrido a pé e para Arnold, que quase não saia de casa, aquele passeio era o seu ritual favorito, uma jornada até o espetáculo. Durante o percurso, Arnold ia contando seus cards e lendo em voz alta o nome de todos os jogadores. O menino se empolgava quando se deparava com a figura de Jackie Robinson, “nosso melhor homem, tio”, “este ano a World Series é nossa”, o tio emendava.

O Brooklyn Dodgers era a alegria da garotada. As escolas do bairro estavam repletas de meninos que tinham a esperança de se tornarem incríveis rebatedores e um dia vestirem a camisa branca de logo azul.

Arnold não possuía tal pretensão. Contentava-se em ser um fiel espectador e quando podia acompanhava o show diretamente do palco: o grandioso Ebbets era o seu lugar favorito de todo bairro.

Mas a alegria de Arnold pouco durou. Em 1957 seu querido clube, o Brooklyn Dodgers, o traiu e num piscar de olhos tornou-se Los Angeles Dodgers. Jackie Robinson e seus companheiros foram desfrutar das praias da costa oeste e o pobre garoto ficou desolado.

“Como pode, tio Ben? Um time todo abandonar a gente?”. E eles abandonaram. De um dia para o outro os moradores da amada Brooklyn não tinham mais para quem torcer. E para eles torcer pelos Yankees ou Mets era um pesadelo, afinal, eles não eram nova-iorquinos, eles eram “pessoas do Brooklyn”.

O luto de Arnold durou meses. Seus passeios dominicais não existiam mais. Mas pelo menos, ele ainda tinha o querido Ebbets e podia, de vez em quando, contemplá-lo.

Em 1960 o Brooklyn Dodgers e quaisquer resquícios de sua existência sumiram de vez. Ebbets Field foi demolido e em seu lugar um conjunto de prédios surgiu.

Arnold sentiu-se abandonado e traído pela segunda vez.

Era isso, para ele o baseball estava acabado. Nunca mais acompanhou, nunca mais torceu.

2018 e Arnold tem 74 anos. E de um casamento feliz vieram muitos frutos, três filhos e sete netos.

Hoje é um dia especial, Arnold está sentado no Yankee Stadium, logo na primeira fileira onde tem uma visão clara do rebatedor.

Arnold acena para o jovem que segura o taco, mas o menino está muito concentrado para prestar atenção.

Hoje Arnold faz as pazes com o baseball e, depois de muitos anos sentindo falta do Ebbets Field, ele se sente pleno no estádio do rival. Arnold olha para o neto que ainda segura o taco, acena novamente e o garoto lhe dá um sorriso de canto. Arnold sente a mesma empolgação que sentia quando caminhava com o tio até aqueles portões. E com lagrimas nos olhos pensa “É, o baseball faz parte da minha vida novamente”.

 

A Copa de duas famílias

Meu nono se sentou na poltrona à espera do espetáculo. O ano era 1982. Fazia uma semana que a Copa da Espanha havia começado. Minha família sempre gostou muito de futebol. As duas famílias. A parte materna era italiana, com sangue bem quente e com uma boca bem grande para xingar aos quatro ventos. A família paterna era polonesa. Gente que demonstrava pouca emoção e falava o mínimo necessário.

Aquele jogo das duas da tarde era um Itália x Polônia e, embora não tivessem nada em comum, as duas famílias partilhavam da mesma paixão: o futebol.

A Polônia, nada vitoriosa, vivia da expectativa, das apostas em sua fábrica de camisas 9. A Itália, pelo contrário, contava com dois troféus na prateleira.

A família não era tão próxima, mas sempre teve uma boa relação, o leste europeu se dava até que bem com o oeste, mesmo a babcia, de vez em quando, reclamando, “Gente barulhenta”, ela dizia.

Num dia daquele junho de 82 as duas famílias se encontraram. Almoçaram juntas.

Meu nono estava desconfortável, ele ficava nervoso diante da sua Seleção. O Jogo estava no primeiro tempo e aos 34 o camisa 9 polonês marcou um gol. 0x1. E a Polônia estava na frente. Ele xingava bastante e nem percebia que não estava em sua casa.

1×1 e o semblante do velho melhorou. Casa polonesa mais quieta que o costume. 1×2 e o italiano surtou.

O jogo terminou e o velho ficou emburrado no canto. Minha mãe, com sua sábia paciência, foi até ele e conversou, “temos dois canecos, deixe eles terem algum”. O velho melhorou, se lembrou das Copas anteriores e da emoção que sentiu vendo sua Azurra campeã.

Meu nono,  então,  desejou que a família de lá sentisse a mesma emoção. Que ela pudesse ver sua seleção erguer a taça que já havia lhe dado tantas alegrias.

A Copa e o futebol são assim, de quatro em quatro anos fazem o velho mais turrão derreter o coração.

 

Mariana

Mariana gostava de arte. As paredes do seu pequeno apartamento eram recheadas de imagens que se dividiam em fotos preto e branco, reimpressões de pinturas famosas, pinturas de pessoas desconhecidas, mapas e figuras afetivas. Quase não se via a cor da tinta das paredes em alguns cômodos, poderia ser cinza ou branca, como saber?

Mariana também gostava de livros. Junto dos quadros os livros eram a segunda decoração em maior destaque. Alguns lidos outros pela metade e outros só folheados. Eles tinham cadeira cativa nas estantes que recheavam a sala e o seu quarto. Às vezes, também era possível encontrá-los no banheiro, ao lado do trono.

Diante dessas duas afirmações, é impossível dizer que Mariana não era uma pessoa culta, ou pelo menos interessada pelas faculdades criativas e instrutivas.

Mas Mariana tinha uma característica que soava como defeito para seus amigos mais próximos e familiares: Mariana detestava museus.

– Mariana, são as filas? Ou as pessoas amontadas? O que lhe incomoda? – perguntava a irmã.

– Nada disso! Eu só não gosto de sair de casa para admirar obras que eu poderia facilmente encontrar na internet ou nas páginas de um livro.

– Você é esquisita! – desdenhava a irmã.

Não gostar de ir a museus soava anticultural e muitos amigos diziam que ela não deveria espalhar essa informação.

Mas Mariana não se sentia mal. Ouvia e ignorava.

Era o começo do outono e as flores, aos poucos, iam embora e as folhas, que começavam a secar, ganhavam destaque.

Mariana parou diante de um Ipê e ficou por minutos observando o amarelo pisado no chão, o pouco de amarelo entre os galhos e se lembrou de Van Gogh.

Mariana era capaz de ver arte onde muitos ignoravam.

 

Photo by kevin laminto on Unsplash

 

 

O problema com a mala

Era o último dia e o inevitável se aproximava. Todas aquelas tranqueiras espalhadas pelo quarto teriam que caber dentro de um espaço 60×40 cm.

Doze livros, quatrocentas e tantas mudas de roupa e mais uns cem cacarecos. A questão física era inviável, não caberia. Mas levando em conta a questão sentimental, Ana estava determinada a não deixar nenhum homem para trás.

Arrumar as malas havia se tornado um exercício muito mais exaustivo do que qualquer esteira numa academia. Ela ficou umas três horas tentando encaixar tudo aquilo e como num jogo de tetris, nenhum lugar deveria sobrar. Ainda havia a questão dos frágeis, eles não podiam ficar espalhados, dançando pela mala, e precisavam ser aninhados numa muda de roupa qualquer. Mais um trabalho.

Coloca aqui, tira dali, coloca de novo, ajeita um pouco, chora um pouco também — limpa o suor –, coloca novamente, usa o espaço da caneca — “por que comprei canecas?”, Ana pensou –, tira tudo das caixas que ocupam espaços desnecessários… E assim o malabarismo seguiu.

Umas tantas horas depois tudo estava no devido lugar.

Ana olhou para aquela mala fechada e bonitinha, para aquele quarto arrumado e sentiu um orgulho. Ela havia conseguido! Tudo estava dentro e permaneceria assim até o desembarque em sua casa.

Só que, após toda a euforia, veio um vazio. Ana percebeu que estava indo embora.

A gente aprende a gostar da cidade nova e nos dias finais da estadia começa até a se sentir como parte do lugar e do cotidiano das pessoas.

Então, Ana constatou: o último dia de férias é sempre uma merda!

Photo by Fredrick Kearney Jr on Unsplash

 

 

Cosme Velho Segundo

A tarefa parecia ser muito fácil: sentar-se e começar a escrever. Mas, para Pedro, tal tarefa havia se tornado extremamente difícil. Ele era escritor, ou pelo menos gostava de dizer para todos que essa era a sua profissão. Com três livros publicados abandonou o cargo público e resolveu se dedicar ao que era a sua paixão.

Seus três livros tinham feito um relativo sucesso, pelo menos o primeiro, cujos direitos haviam sido vendidos para Portugal.

Foi uma alegria. Pedro começou a se imaginar fazendo um booktour por Lisboa, Porto, Sintra, Évora, se imaginou palestrando na Universidade de Lisboa, discutindo com os graduandos o simbolismo por trás do personagem Joca, o protagonista do romance Estrada dos Sonhos. Um nome clichê para uma história sem condimentos.

Nada disso se tornou realidade. O livro não vendeu bem nas terras lusas, empacou nas prateleiras das livrarias e muitos foram parar nas bibliotecas onde ninguém os lia. Pedro imaginou que suas próximas histórias fariam mais sucesso e num embalo frenético escreveu o segundo e o terceiro, um atrás do outro. Só que dessa vez nenhum gringo quis saber das suas histórias e isso o abalou. Quando chegou a vez do quarto romance, empacou na sexta página.

Colocava-se diante do computador e nada surgia. O word ficava ali, com aquele tracinho piscando, a espera das próximas palavras, mas nada saia.

O mais comum nesses casos é respirar fundo, ler um pouco, tentar escrever sobre outra coisa, um texto aleatório… Mas não, Pedro pirou. Caiu num pânico, num medo de nunca mais escrever, medo de não ter dinheiro para pagar as contas e pior, medo de cair no ostracismo. “Com três livros no mercado uma galera sabe quem eu sou, estou no skoob e em uma questão literária no vestibular de Viçosa. Mas se não lançar nada novo, em cinco anos ninguém lembrará meu nome”.

A previsão de Pedro se concretizou. O quarto livro não vingou. Morreu na página doze. E Pedro virou um desconhecido, mas continuou vivo. Arrumou um emprego, voltou para a rotina e pegou trauma da escrita. Hoje em dia só escreve a lista de compras, nada mais.

Pedro foi com muita sede ao pote, criou uma história vendável e se sentiu “O” escritor do século XXI. Seu pior crítico, no entanto, foi feroz. Deu-lhe um bloqueio criativo devastador.

Pedro, que se sentia o Machado de Assis da nova era, findou a carreira quando percebeu que o que escrevia nunca chegaria aos pés do senhor do Cosme Velho.

Photo by rawpixel on Unsplash

Corrida matinal

O apartamento de Georgina ficava a umas três quadras do parque. O costume era acordar às seis horas da manhã, quando ainda estava um pouco escuro, preparar aquele café preto ­– que ela não tinha certeza se fazia mal ou não –, tomá-lo e descer. No elevador, que era um pouco antigo e por isso um pouco lento, Georgina confabulava “Me falaram que seria melhor comer bananas antes de fazer exercícios (…), por causa do potássio e coisa e tal”. Mas bananas não eram o seu forte e até o cheiro lhe causava repulsa.

Georgina nunca fora atlética, mas, ultimamente, aquelas gordurinhas sobrando estavam lhe causando aflições. O parque que fazia parte do cotidiano da Nova-Iorquina era o Central Park. Talvez o parque mais famoso do mundo e, também, o mais lotado. Porém, o Central Park guarda um segredo: ele é enorme. Sua grandeza impede que o vejamos como um lugar abarrotado de gente. Então Georgina podia se exercitar sem ter que desviar dos turistas.

– Um parque é um lugar mais saudável que uma academia –, Chin, uma senhora coreana com seus 76 anos, comentava com Georgina.

Elas se encontravam sem marcar encontros. Georgina botava o pé na Park Avenue exatamente às sete da manhã e este devia ser o mesmo horário em que Chin também descia a tal avenida em direção ao monumento de William Tecumseh, na entrada leste do parque – era lá que se encontravam.

– Por que diz isso, Chin? Não sei se é um lugar saudável, mas definitivamente é um lugar mais barato. Em uma YMCA eu gastaria uns 50 dólares mensais, fácil.

– Acho saudável porque não entramos em contato com o suor e bactérias alheios. Sabe-se lá se as pessoas que trabalham nas academias limpam direito aqueles trecos onde todo mundo se senta. Minha neta vive reclamando, ela leva seu próprio pano e álcool gel.

– Tem razão! Que nojo!

Correr e falar tirava, por muitas vezes, o fôlego de Georgina. Chin lidava com isso de maneira bem elegante, quase nunca tossia. “Seu diafragma é mais treinado que o meu”, Georgina pensava.

Georgina tinha 37 anos. No mundo atual os 30 eram os novos 20 e assim por diante. Então Georgina tinha 27.

Além das gordurinhas a corrida matinal tinha outro motivo. Ela andava estressada com o trabalho, sem ânimo para encontrar os amigos e com vontade de ficar em casa vendo TV. Nem os livros a satisfaziam mais. “Qualquer exercício físico lhe fará bem”, foi a sugestão da psicóloga. Georgina escutou e aceitou.

Chin era uma senhora com um papo muito bom. Sua família havia ficado na Coreia do Norte. Ela escapara com a ajuda de um amigo sul coreano. Não tinha saudades do seu antigo país, apenas dos irmãos e sobrinhos que nunca mais vira ou soubera notícias. Os Estados Unidos a acolheram, e ali Chin fez família, se casou, trabalhou, teve filhos, se aposentou, teve netos e hoje vivia uma vida bem confortável em Manhattan.

A história de Chin inspirava Georgina. Embora tenha tido uma juventude sofrida, as ruindades que o mundo mostrou não a impediram de buscar o melhor e ter, sempre, esperança. “Dos limões ela fez a limonada”, Georgina pensava e admitia que a frase, apesar de clichê, era o resumo da vida de Chin.

Aquelas manhãs com as corridas matinais e, principalmente, com a companhia de Chin tinham dado outro sentido para a vida de Georgina. O desanimo passou e até os livros voltaram a fazer parte da sua vida. Alguns, inclusive, por indicação de Chin.

Photo by Hector Argüello Canals on Unsplash

Ensopado madrileño

Eu tinha uma escala de doze horas em Madri. Quando comprei a passagem nem percebi, mas deveria ter desconfiado do preço… Estava muito acessível para não conter uma pegadinha. E tinha. Uma “pequena” escala.

Escalas são horríveis, são longas, mas não o bastante para te deixar aproveitar a cidade. Elas, secretamente, te dizem “olha essa cidade linda, você poderia desfrutá-la durante algumas horas, mas vai ficar presa nesta cadeira desconfortável, – risada maligna”. Os aeroportos, geralmente, são bem afastados de qualquer centro, o que faz sentido, ninguém merece morar ao lado das turbinas tipo Congonhas.

A escala me possibilitou um passeio pela capital espanhola. Nunca tive muita vontade de conhecer os países ibéricos, mas fui positivamente surpreendida.

A cidade é linda. Limpa. Com uma arquitetura invejável. Limpa. Canteiros com flores. Limpa… É, ela é muuuito limpa. Não encontrei sujeira na rua e olha que eu procurei, queria chegar ao Brasil e falar “nem é tudo isso, cheia de bituca de cigarro no chão”, mas não pude.

Desfrutei de umas 8 horas na cidade. O almoço estava incluso nessas horas. Com a indicação de um amigo, achei um restaurante bem simpático, O Caldino, que faz uma lula incrível. A melhor da minha vida. Comerei muitas, e tenho certeza que nenhuma será páreo para a lula do Caldino. A lula era entrada. E eu, burra, deveria ter ficado só com ela. Era grande, tava boa e era o suficiente. Achei rude não pedir o prato principal.

Eu não sabia, mas na Espanha os garçons não falam inglês, pelo menos o do Caldino não falava. Eu não falo espanhol e o espanhol deles não é o castelhano, ou seja, não dá para entender.

Com o cardápio na mão, sem entender bolhufas, tentando falar inglês, espanhol e até um italiano ridículo com o garçom, consegui pedir um pollo, que eu sabia que significava frango.

O pollo chegou. Era um ensopadão. Eu não entendi o que tinha ali dentro. Um caldo laranja, levemente apimentado, com batatas – acho que eram batatas, e pele, sim, muita pele de frango boiando… Dei duas bocadas e não consegui mais…

Fiquei com vergonha. Estava em outro país cujos costumes não me eram comuns. E se, deixar comida no prato, é sinônimo de heresia, falta de educação? Fiquei meia hora olhando para aquele caldo, tentando achar seus pontos positivos… Não deu. Larguei e agradeci.

Na hora de pagar, o garçom, que devia estar intrigado, tentando entender de que lugar eu era, afinal, tentei inglês, espanhol e até italiano, me perguntou. Respondi que era do Brasil e que estava um pouco confusa, pois tinha acabado de sair da Itália. Ele sorriu gentilmente e começou a falar português. Disse que aprendeu já que recebia muito turista do país.

Que merda! Se, desde o começo, eu tivesse soltado o bom e velho português, não teria pedido o ensopado e não teria contemplado aquela pele de frango que assustadoramente boiava.

Às vezes, não há idioma como o materno!

Photo by Zoltan Kovacs on Unsplash

A wonderful place

The world is a wonderful place.

Leave aside the rocks you find.

If you hit that sadness, see photos.

Not those taken by you,

But the photos of someone else

You will see infinite possibilities

To feel better:

Millions of places to see,

Millions of books to read,

Lots of ways to live

and

Countless coffees to try,

and remember: the world is a wonderful place.

 

Photo by Tom Holmes on Unsplash

Carbonara à parte

Caminhar por Roma me deu a sensação de estar num parque arqueológico. As arquiteturas da cidade, às vezes moderna e quase sempre antiga, se misturam de forma única, um charme próprio. Bastava virar a esquina e eu já sacava a máquina fotográfica para tirar foto de algum monumento. Muitos eu já conhecia graças a uma pesquisa prévia, outros, só fotografei por que achei bonito mesmo.

Todos os cafés, restaurantes e bares eram muito convidativos. Demorei umas três horas para decidir o local do almoço. Passei pela Trattoria Da Lucia, coloquei um pé para dentro, o local era charmoso, titubeei e resolvi que pesquisaria mais um pouco. Dei o mesmo tratamento para outros cinco estabelecimentos e caí no Da Vito e Dina, na Via degli Scipioni, um ristorante vizinho do Papa.

Lá eu pedi a Seafood Pasta. É um macarrão que não deve ser muito típico, não sei, pra mim não tinha cara de comida italiana embora a pasta estivesse lá. Depois de comer muito Carbonara durante toda a viagem, é o prato mais barato da Itália, eu estava um pouco enjoada e frutos do mar me pareceu uma saída. Carbonara’s fans que não me julguem, mas o tal do Seafood estava delicioso.

Tomei vinho com a minha Seafood. Eu não gosto de vinho, ou pelo menos não gostava. Mas este é o charme da “bota”. Tudo que lá é fabricado tem um sabor diferente. Sai do país amando uma boa uva fermentada.

A próxima parada era na Fontana di Trevi, palco da Dolce Vita de Fellini. Na Fontana é muito comum as pessoas jogarem moedas e fazerem pedidos. Eu já tinha reservado as minhas cinco moedinhas, iria fazer cinco pedidos. Ficaria de costas e as arremessaria, uma de   cada vez.

Cheguei à Fontana. Quer dizer, eu achava que tinha chegado, pois eu nem conseguia vê-la. Naquele momento, aquela fonte era o lugar com a maior concentração de turista da face da terra. Certeza.

Na minha imaginação romanceada, eu encontraria a fonte e seria apenas ela e eu, numa conexão intima e profunda, faria meus pedidos e a luz que incidiria sobre sua água seria muito especial. Uma imaginação potencializada por uma exacerbada carga de leitura romanesca.

A Fontana, que mais parecia uma piscina pública num dia de muito sol, me decepcionou. Bem, não ela, mas o meio mundo que estava ali.

Eu fiz os cinco pedidos. Lancei as moedas de maneira meio torta, meio sem jeito.

Nenhum deles se realizou.

No dia seguinte, a visita seria ao Coliseu. Ao ir me aproximando dele, percebi que o pessoal do piscinão havia migrado pra lá também.

Andei pelas suas galerias repedindo “excuse-me” e trombando com meio mundo.

Passo por um casal, brasileiros, e ouço a mulher cochichar para o marido “nossa, como isso aqui tá lotado de turista!”. E percebo que faço parte daquilo, do isso, dos turistas. “Como posso reclamar do outros turistas se também sou uma?”, penso. Boto um sorriso amarelo no rosto e me pergunto onde posso deliciar o tiramisu mais próximo.

Photo by Izzy Boscawen on Unsplash

Amarelo

A casinha amarela tinha duas janelas e numa delas repousavam dois vasos, bem pequenos, com flores de cor lilás. Não soube dizer quais flores eram por que a verdade é que nada entendo de flores. Só sei reconhecer um girassol. Mas o girassol é a flor mais óbvia, talvez a mais conhecida do mundo. Graças a Van Gogh, imagino eu.

A rua de pedregulho dificultava a passagem. A rasteirinha nos pés não ajudou. Fazia muito sol e a ideia de colocar um tênis nos pés me causou aflição.

Encarei o chinelo com dignidade.

A casa onde eu estava hospedada era ao lado da casinha amarela. A minha vizinha simpática, que nunca conheci, gritava umas palavras em italiano bem regional. Eu não falo italiano, mas gosto de pensar que ela gritava no seu dialeto local. Ela gritava com uma criança ou uma jovem, não sei dizer. Só sei que a voz era estridente, característica dessa idade.

A casa amarela tinha um gatinho. Ele era amarelinho e combinava com o lugar onde morava. Estava sempre na soleira da porta. Não sei se sempre, mas pelo menos toda vez que eu passava.

Fiz uma amizade imaginaria com o bichano. Imaginei que aqueles gritos diários deveriam torturá-lo. Já ouvi dizer que os gatos tem a audição muito apurada e se o som estridente da criança me incomodava… Me compadeci com o podre animal.

Nossa amizade, aos poucos, saiu do imaginário e passou para a realidade. Toda vez que saia eu passava no mercado, ia até a sessão dos pets e comprava um pacotinho de biscoitos felinos. Ginger, o nome que inventei para ele, vinha até os meus pés atrás da comida gratuita.

Fomos nos tornando confidentes. Dois estranhos com um problema em comum: os moradores da casa amarela.

Ginger passou a me esperar na soleira todos os dias, mas não na minha volta e sim na minha ida. Eu passava e lá ia ele trotando atrás. No começo eu fiquei preocupada, “E se esse gato se perder? Será que ele consegue voltar para casa sozinho?”. Mas logo minha preocupação foi embora. Ginger era muito esperto e companheiro.

Todos os dias ele andava comigo pelo centro velho de Nápoles, me “mostrando” os lugares, me levando para ver a cidade que ele conhecia tão bem por ser um napolitano nato. Ginger, pelo meu olhar, devia ter uns cinco anos de idade.

Comemos pizza juntos. Ginger gostou do queijo e desdenhou a massa. Visitamos castelos, por fora, pois Ginger não podia entrar. Passeamos pelo shopping e lá Ginger ganhou uma coleira cor verde água, combinava com seus olhos. Demos um pulo na praia e Ginger ficou confuso com tantas conchinhas em meio aos cascalhos, tentou desenterrar todas.

Ginger se tornou a razão da minha viagem. Embora eu amasse estar desbravando uma nova cidade, eu amava mais o Ginger.

Uma semana antes do retorno ao meu país fiquei cabisbaixa. Me imaginei deixando Ginger para trás e nunca mais estando em sua companhia. Imaginei sua vida sem os meus biscoitos diários e tendo que aguentar os gritos da casa amarela. Sofri muito.

Mas eu não tinha o que fazer. Ginger não era meu. Pertencia às pessoas estridentes.

Então tive uma ideia maquiavélica. Dois dias antes do meu retorno, eu sequestraria o Ginger e esperaria para ver se alguém da casa amarela sentiria sua falta.

A ausência de Ginger não foi sequer notada. A mãe continuava gritando com a filha como havia feito desde o primeiro dia que pisei ali.

Ginger iria comigo.

Salvaria o meu gato.

Cheguei no aeroporto.

Comprei a passagem do Ginger.

Embarcamos.

Sentei-me na poltrona.

E o avião decolou.

O caminho todo senti-me uma ladra… Mas estava feliz. Ginger era meu novo companheiro e daquele momento em diante, ganharia biscoitos todos os dias de sua vida.

Photo by Danny Trujillo on Unsplash