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1960

My mother was born in 1960, the year of the first electronic computer.
In 1969, when she was 9, astronauts aboard the Apollo 11 arrived on the moon.
It was a special decade for humanity, but more special for me, cause on February 14, 1960, my mother arrived in this world in a family who lived on the banks of the Ipiranga River, the one where D. Pedro gave the cry. She was the oldest of three brothers.

She was always witty and clinging very easily to people.
But her greatest quality was to be the center of the family.
She never went to college, but that did not stop her from working in various places.
She had always been a dreamer, wanted to do medicine and even thought about being a flight attendant, even though she had never traveled by plane.

In 1990, when she was 30 years old, she was graced with the arrival of two girls, twins. Two at a time. She decided that she would not work anymore and that she would occupy the most important position of her life: to be a mother.
She liked the new position so much that ten years later she got a promotion, my brother. A sweet little boy.

My mom was the kind of person who was always okay, except when she was fighting with us. “You stay too much on the computer”; “Drop this phone”; “Wash that crockery”.
It was that kind of mother who put her children first.

Sometimes I hear that Pink Floyd’s song, Mother, and I remember of her.

Momma will not let anyone get dirty through
Momma’s gonna wait up until you get in
Momma will always find out where you’ve been
Momma’s gonna keep baby healthy and clean

She was like that, overprotective. And I hated it. Today, I miss it.

We learn to live with longing. We learn to cling to memories, photos, videos.
I keep small things that were hers. As if they were treasures. I know it’s silly, it’s just stuff. But it’s her stuff.

Time works well, it heals a lot and happily passes fast.
And what remains is the lesson that life is a breath, one day we are and another we are not.

Maybe that’s the most important lesson she left me.
We have to do what we want, here and now.

[…]

1960 will always be my favorite year.

Carbonara à parte

Caminhar por Roma me deu a sensação de estar num parque arqueológico. As arquiteturas da cidade, às vezes moderna e quase sempre antiga, se misturam de forma única, um charme próprio. Bastava virar a esquina e eu já sacava a máquina fotográfica para tirar foto de algum monumento. Muitos eu já conhecia graças a uma pesquisa prévia, outros, só fotografei por que achei bonito mesmo.

Todos os cafés, restaurantes e bares eram muito convidativos. Demorei umas três horas para decidir o local do almoço. Passei pela Trattoria Da Lucia, coloquei um pé para dentro, o local era charmoso, titubeei e resolvi que pesquisaria mais um pouco. Dei o mesmo tratamento para outros cinco estabelecimentos e caí no Da Vito e Dina, na Via degli Scipioni, um ristorante vizinho do Papa.

Lá eu pedi a Seafood Pasta. É um macarrão que não deve ser muito típico, não sei, pra mim não tinha cara de comida italiana embora a pasta estivesse lá. Depois de comer muito Carbonara durante toda a viagem, é o prato mais barato da Itália, eu estava um pouco enjoada e frutos do mar me pareceu uma saída. Carbonara’s fans que não me julguem, mas o tal do Seafood estava delicioso.

Tomei vinho com a minha Seafood. Eu não gosto de vinho, ou pelo menos não gostava. Mas este é o charme da “bota”. Tudo que lá é fabricado tem um sabor diferente. Sai do país amando uma boa uva fermentada.

A próxima parada era na Fontana di Trevi, palco da Dolce Vita de Fellini. Na Fontana é muito comum as pessoas jogarem moedas e fazerem pedidos. Eu já tinha reservado as minhas cinco moedinhas, iria fazer cinco pedidos. Ficaria de costas e as arremessaria, uma de   cada vez.

Cheguei à Fontana. Quer dizer, eu achava que tinha chegado, pois eu nem conseguia vê-la. Naquele momento, aquela fonte era o lugar com a maior concentração de turista da face da terra. Certeza.

Na minha imaginação romanceada, eu encontraria a fonte e seria apenas ela e eu, numa conexão intima e profunda, faria meus pedidos e a luz que incidiria sobre sua água seria muito especial. Uma imaginação potencializada por uma exacerbada carga de leitura romanesca.

A Fontana, que mais parecia uma piscina pública num dia de muito sol, me decepcionou. Bem, não ela, mas o meio mundo que estava ali.

Eu fiz os cinco pedidos. Lancei as moedas de maneira meio torta, meio sem jeito.

Nenhum deles se realizou.

No dia seguinte, a visita seria ao Coliseu. Ao ir me aproximando dele, percebi que o pessoal do piscinão havia migrado pra lá também.

Andei pelas suas galerias repedindo “excuse-me” e trombando com meio mundo.

Passo por um casal, brasileiros, e ouço a mulher cochichar para o marido “nossa, como isso aqui tá lotado de turista!”. E percebo que faço parte daquilo, do isso, dos turistas. “Como posso reclamar do outros turistas se também sou uma?”, penso. Boto um sorriso amarelo no rosto e me pergunto onde posso deliciar o tiramisu mais próximo.

Photo by Izzy Boscawen on Unsplash

Amarelo

A casinha amarela tinha duas janelas e numa delas repousavam dois vasos, bem pequenos, com flores de cor lilás. Não soube dizer quais flores eram por que a verdade é que nada entendo de flores. Só sei reconhecer um girassol. Mas o girassol é a flor mais óbvia, talvez a mais conhecida do mundo. Graças a Van Gogh, imagino eu.

A rua de pedregulho dificultava a passagem. A rasteirinha nos pés não ajudou. Fazia muito sol e a ideia de colocar um tênis nos pés me causou aflição.

Encarei o chinelo com dignidade.

A casa onde eu estava hospedada era ao lado da casinha amarela. A minha vizinha simpática, que nunca conheci, gritava umas palavras em italiano bem regional. Eu não falo italiano, mas gosto de pensar que ela gritava no seu dialeto local. Ela gritava com uma criança ou uma jovem, não sei dizer. Só sei que a voz era estridente, característica dessa idade.

A casa amarela tinha um gatinho. Ele era amarelinho e combinava com o lugar onde morava. Estava sempre na soleira da porta. Não sei se sempre, mas pelo menos toda vez que eu passava.

Fiz uma amizade imaginaria com o bichano. Imaginei que aqueles gritos diários deveriam torturá-lo. Já ouvi dizer que os gatos tem a audição muito apurada e se o som estridente da criança me incomodava… Me compadeci com o podre animal.

Nossa amizade, aos poucos, saiu do imaginário e passou para a realidade. Toda vez que saia eu passava no mercado, ia até a sessão dos pets e comprava um pacotinho de biscoitos felinos. Ginger, o nome que inventei para ele, vinha até os meus pés atrás da comida gratuita.

Fomos nos tornando confidentes. Dois estranhos com um problema em comum: os moradores da casa amarela.

Ginger passou a me esperar na soleira todos os dias, mas não na minha volta e sim na minha ida. Eu passava e lá ia ele trotando atrás. No começo eu fiquei preocupada, “E se esse gato se perder? Será que ele consegue voltar para casa sozinho?”. Mas logo minha preocupação foi embora. Ginger era muito esperto e companheiro.

Todos os dias ele andava comigo pelo centro velho de Nápoles, me “mostrando” os lugares, me levando para ver a cidade que ele conhecia tão bem por ser um napolitano nato. Ginger, pelo meu olhar, devia ter uns cinco anos de idade.

Comemos pizza juntos. Ginger gostou do queijo e desdenhou a massa. Visitamos castelos, por fora, pois Ginger não podia entrar. Passeamos pelo shopping e lá Ginger ganhou uma coleira cor verde água, combinava com seus olhos. Demos um pulo na praia e Ginger ficou confuso com tantas conchinhas em meio aos cascalhos, tentou desenterrar todas.

Ginger se tornou a razão da minha viagem. Embora eu amasse estar desbravando uma nova cidade, eu amava mais o Ginger.

Uma semana antes do retorno ao meu país fiquei cabisbaixa. Me imaginei deixando Ginger para trás e nunca mais estando em sua companhia. Imaginei sua vida sem os meus biscoitos diários e tendo que aguentar os gritos da casa amarela. Sofri muito.

Mas eu não tinha o que fazer. Ginger não era meu. Pertencia às pessoas estridentes.

Então tive uma ideia maquiavélica. Dois dias antes do meu retorno, eu sequestraria o Ginger e esperaria para ver se alguém da casa amarela sentiria sua falta.

A ausência de Ginger não foi sequer notada. A mãe continuava gritando com a filha como havia feito desde o primeiro dia que pisei ali.

Ginger iria comigo.

Salvaria o meu gato.

Cheguei no aeroporto.

Comprei a passagem do Ginger.

Embarcamos.

Sentei-me na poltrona.

E o avião decolou.

O caminho todo senti-me uma ladra… Mas estava feliz. Ginger era meu novo companheiro e daquele momento em diante, ganharia biscoitos todos os dias de sua vida.

Photo by Danny Trujillo on Unsplash

Contramão

O táxi amarelo indicava a cidade. E mesmo que pensasse estar no Rio de Janeiro, o som que saia das bocas dos transeuntes já lhe avisava: “Você está mesmo em Nova York!”. Pensamento engraçado e meio bobo. Confabulou se a mesma cor do táxi era algum tipo de ligação entre as duas cidades, algum pacto da engenharia de trânsito. Não soube dizer e ficou com preguiça de pesquisar no google.

Nina largou as malas no hotel e correu para a rua, precisava respirar aquele ar, um cheiro que só aquela cidade possuía. O aroma nova-iorquino é uma soma de muitos odores e perfumes, a fumaça que escapa dos escapamentos dos carros; o ar que sai dos buracos do metrô; a pizza sendo assada; o café sendo passado. Eles se encontram e nos agraciam. Não é ruim, nem bom, é o que é.

A primeira parada foi para comer o que vinha salivando em sua boca desde a saída do Brasil. Um cheesecake, qualquer um. Pararia na primeira lanchonete e lá largaria quatro, cinco dólares com satisfação.

Na esquina, ao lado do hotel, havia um dinner, desses que a gente vê em filme, xicara branca, estofado vermelho. Lá se sentou e pediu a torta cor de creme. Era deliciosa, como imaginou que seria. Sozinha, sentiu-se feliz por não ter que dividir aquilo com alguém.

De olho no cheesecake até o fim não reparou que na ponta da sua mesa repousava um livro. Não era seu. Não viu quem deixara ali. “O livro estava aqui, todo esse tempo?”, pensou. O cheesecake havia tomado toda a sua atenção. Até aquele momento.

Pegou-o na mão. Era um romance noir. Folhou. Leu a quarta capa. Se interessou. O livro era uma brochura, sua capa era mole, mas ele tinha duas orelhas, numa delas repousava a foto do autor orgulhoso – alguém que imaginou que enriqueceria vendendo sua história –, na outra orelha estava um nome e um telefone, “o dono do exemplar”, pensou.

“Vou leva-lo comigo e tentar entrar em contato com essa pessoa”, pensou alto. O livro, porém, atiçou sua curiosidade. A capa, ao estilo Walter Popp, era interessante e convidativa. Começou a leitura quando conseguiu pegar o metrô, a caminho do Central Park.

Num banco do parque, aproveitou e leu mais algumas páginas. Sequer notou aquela paisagem de outono que começava a colorir de laranja o chão por onde as bicicletas, os patins, os tênis passavam.

A história, que prendeu Nina, era sobre uma moça, Susan, que ia ao encontro de um detetive, Jacob, e lhe pedia ajuda. Susan buscava um artefato raro, que fora roubado por uma gangue local. A busca por tal artefato já havia causado a morte de inúmeras pessoas. Jacob era a última esperança de Susan. “Uma cópia barata de O Falcão Maltes”, pensou.

A tal cópia barata a encantou de maneira surreal. Era aquele tipo de livro que te suga, que te faz devorar as páginas em busca da conclusão e que te faz implorar para que a história não chegue ao fim.

O romance noir parecia mágico. Fez Nina ignorar Nova York e agora, estava mexendo com a sua cabeça. Começara a ser perceber como Susan, a protagonista. Era loira como Susan, era insistente como Susan. Mas só isso. Nada além de uma corriqueira coincidência.

Voltando para o Hotel pensou “preciso devolver este livro”, Glover, o nome rabiscado na orelha “Deve estar a sua procura”.

O fato é que ela não conseguia, queria terminar a história que era bem longa, em torno de umas quinhentas páginas.

O livro estava arruinando sua viagem, não saia mais do hotel e quando saia, sentava-se em algum banco e ficava lá, lendo.

Nova York havia perdido esta batalha. Fora ignorada pelo romance noir, gênero que se consagrou em suas entranhas. A história era mais interessante que a grande maçã.

Susan, Jacob e o enredo, uma cópia de Dashiel Hammett, custaram dez mil reais, o valor que Nina havia investido em sua viagem.

Photo by Charisse Kenion on Unsplash

Cada canto um conto

Gosto muito de escrever. Não importa o quê.

Ficção, realidade, texto sobre um filme, sobre um livro, sobre uma situação, sobre meus gatos. Enfim, qualquer coisa.

Meus textos são curtos, nunca consegui levá-los à quarta página. Mas não acho que isso seja um defeito, apenas um jeito de lidar com as palavras. Lovecraft nunca escreveu romances, apenas contos.

Pensei em juntar duas paixões, escrever e viajar. Criei pequenos textos — não sei se posso considerá-los contos — sobre cada lugar que visitei. Não foram muitos, mas foram especiais.

São cinco ficções que se passam em cinco cidades. Postarei uma a cada semana.

Photo by Aaron Burden on Unsplash

 

 

Julia Child

Recentemente, numa tarde de molho e com virose em casa, revi o filme Julie e Julia. Nele a personagem principal, Julie, decide, após encontrar-se desgostosa com a própria vida,  cozinhar todas as receitas presentes no livro Mastering the Art of French Cooking, de Julia Child, Simone Beck e Louisette Bertholle. O livro contém 524 receitas e Julie deve executá-las em apenas um ano, 365 dias x 524 receitas.

A ideia de Julie é fantástica. Imagine ter o tempo para, todos os dias, cozinhar as receitas que Julia Child desenvolveu e desmistificou (ela tornou a culinária francesa muito mais acessível). Jantar Boeuf Bourguignon seria maravilhoso, e na noite seguinte um Fricassée de poulet à l’ancienne? Eu nem sei o que é, mas o nome soa magnífico.

Porém, há dois problemas nisso tudo. O primeiro é o tempo. Eu não conheço as receitas do livro, mas imagino que algumas delas sejam trabalhosas, tipo o próprio Bourguignon. Ou seja, a pessoa teria que chegar relativamente cedo em casa e para isso, fugir do caótico trânsito de São Paulo. O segundo problema é: Julie não mora no Brasil. Fazer mercado em Nova York é infinitamente mais barato que aqui. Imagina quanto custa a tal da carne que vai no Bourguignon? Não é carne de segunda, é uma alcatra, que custa, em média, uns 25 reais. Sem chances. Só a carne custa 25, daí tem o vinho tinto (e você não vai querer usar um Sangue de Boi), as cenouras e mais tudo que vai. Essa janta sairá por uns 80 reais, no mínimo. Para a Julie a mesma janta deve sair por uns 25 dólares.

Impensável seguir os passos de Julie e Julia Child. Calculo que ao final do ano estaria quebrada, financeira e fisicamente. A vontade e o paladar eu tenho, só falta o dinheiro e o tempo mesmo.

Recently, in one afternoon of sauce and virose at home, I reviewed the movie Julie and Julia. In it, the main character, Julie, decides, after being displeased with her own life, to cook all the recipes present in the book Mastering the Art of French Cooking, by Julia Child, Simone Beck, and Louisette Bertholle. The book contains 524 recipes and Julie must run them in just one year, 365 days x 524 recipes.

Julie’s idea is fantastic. Imagine having the time to, every day, cook the recipes that Julia Child developed and demystified (she made French cooking much more accessible). Dinner Boeuf Bourguignon would be wonderful, and the next night a Fricassée de poulet à l’ancienne? I do not even know what it is, but the name sounds magnificent.

But there are two problems in all this. The first is time. I do not know the recipes of the book, but I imagine some of them are laborious, like Bourguignon himself. That is, the person would have to arrive relatively early at home and for that, to escape the chaotic traffic of São Paulo. The second problem is: Julie does not live in Brazil. Making a market in New York is infinitely cheaper than here. Can you imagine how much it costs for the meat that goes on Bourguignon? It is not second-rate meat, it is a rump steake, which costs, on average, about 25 reais. No chances. Only the meat costs 25, so there’s the red wine (and you will not want to use Sangue de Boi), the carrots and everything else that goes. This dinner will be about 80 reais, at least. For Julie, the same dinner should come out for about 25 dollars.

Unthinkable to follow in the footsteps of Julie and Julia Child. I estimate that by the end of the year I would be broken financially and physically. The will and the taste I have, all I need is money and time.

Um projeto ousado

A questão por trás da elaboração desse projeto era: “como podemos deixar contemporânea um obra do século 19?”

Escrito em 1830, a obra de Stendhal figura em qualquer lista que elenque os livros que precisamos ler antes de morrer.

O Vermelho e o Negro narra a história de Julien Sorel,  jovem imprevisível e ambicioso que vive na cidade de Verrières. O romance é dividido em duas partes. A primeira conta a vida de Sorel na cidadezinha, já a segunda narra sua ida a Paris. Com personagens intrigantes, Stendhal traz ao leitor as condições econômicas, a situação política e a estratificação social daquela época.

Uma lombada aparente, onde a costura que segura os cadernos do livro ficasse visível, nos pareceu uma boa escolha.

E, embora seja um design rústico, um livro sem lombada não nos remete a um livro antigo, mas a uma obra moderna. E, no Brasil, esse acabamento é bem incomum.

A capa foi desenvolvida por Kiko Farkas e Ana Lobo que souberam criar, apenas com o título da obra, o contraste que estávamos procurando entre a cor vermelha e a preta.

A maior vontade, após toda a elaboração do projeto, era que o livro ficasse confortável e seguro para o leitor. E ficou! A lombada aparente em nada prejudica a leitura, na verdade ela até oferece uma flexibilidade maior, já que a ausência da lombada permite que os cadernos abram 180 graus.

O vermelho e o negro
Stendhal
Tradução: Herculano Villas-Boas
Editora: Martin Claret
ISBN: 978-8544001653

 

 

Uma, duas…

Enquanto despertava lentamente, o cheiro do café invadia o quarto, o mesmo aroma de todos os dias, que, embora repetitivo, não causava enjoo ou repudia. Fazia tudo as pressas, o banho, a escova no cabelo, a escolha da roupa de todo dia: uma calça jeans, um par de tênis e uma camiseta não tão surrada – havia sido comprada nas últimas férias.

A pressa tinha um sentido e demostrava, acima de tudo, o desleixo com a própria aparência. Sem maquiagem, de cara lavada, descia correndo as escadas para apreciar o que o aroma havia aguçado. Café, puro mesmo. Sem açúcar ou leite. Só o líquido preto na xícara branca, já machada, que visualmente gerava um contraste clichê, mas ainda sim incrível. O café era tomado com o bafo matinal, os dentes eram lavados depois afinal, a pasta de menta estragaria qualquer apreciação.

Café tomado, dente lavado. Hora de sair. Os compromissos diários do dia-a-dia já batiam na porta. Cindo minutos de atraso e o metrô estaria um inferno, mais do que o habitual. Teria mais gente, respirando o ar exalado pelo vizinho, por metro quadrado.

Os pensamentos que guiavam sua viagem se desenvolviam na seguinte ordem: “tenho três e-mails que precisam ser respondidos assim que eu colocar a minha bunda na cadeira; minha gaveta tá uma bagunça, talvez eu consiga arrumá-la hoje; será que o café estará pronto?”.

A segunda xicara, não branca, mas colorida estava estacionada na mesa, ao lado do bloco de notas todo rabiscado.

O aroma era o mesmo que invadira seu quarto. Não reconhecia diferenças entre marcas e sabores, seu cérebro só sabia que o conforto logo chegaria.

Café, reunião, café, almoço, café. E a terceira xícara chegava, com a esperança de ser a última, “ando bebendo muito café”, pensava.

Photo by IRENE COCO on Unsplash.

De amor e trevas

Recentemente li um livro que me tocou muito. Pantera no Porão é uma obra delicada e que, utilizando a visão de um menino de 12 ano, o Prófi, nos mostra um pouco de como foi a ocupação inglesa anos antes da criação do Estado de Israel.

Prófi é um garoto esperto que deseja ver seu país, ainda não formado, livre do invasores britânicos. Ele e mais dois amigos, Ben-Hur e Tchita, formam a POL, uma organização guerrilheira que visa jogar uma bomba no reinado de Jorge VI, lá no parlamento inglês.

A história de Prófi é, não integralmente, uma lembrança da vida de Amós Oz, escritor israelense nascido no ano de 1939 e cuja infância se passou numa Jerusalém de muitos líderes.

Do seu livro De Amor e Trevas, lançado em 2005, surgiu sua autobiografia, mais tarde adaptada para o cinema, que muito me lembrou o jovem Prófi, filho único de um pai escritor e uma mãe amorosa, cujas noites eram marcadas pelo toque de recolher que o governo britânico impunha a todos, fossem judeus ou não. É como se o Profi do livro de 1995 ecoasse na obra dos anos 2000.

Uma infância que por certo ficou muito bem gravada em Oz. E não poderia ser diferente, sua vivência se passou num país onde soldados alheios desfilavam pelas ruas com carabinas a tira-colo, onde o temor de bombas e tanques de guerra era constante.

A criança Amós cresce junto com sua nação, um Estado que se torna independente em 1948 e que nasce para reunir todos os judeus espalhados pelo mundo após inúmeras diásporas e sofrimento.

 

 

Livro no Brasil

Este é a singela opinião de uma pessoa que está no mercado editorial há mais ou menos cincos anos.

Trabalhar em editora nunca foi meu principal objetivo de vida. Eu queria ser cientista, astronauta, arqueóloga, aquelas profissões que apareciam com uma certa frequência no cinema.

Quando estava no ensino médio eu queria fazer história. Influenciada, em parte, por ótimos professores, mas também pelas aventuras de Hercule Poirot na Mesopotâmia, no Nilo.

Descobri que arqueologia, pelo menos no Brasil, não daria em nada e desisti.

Fui para a Letras, que fora do país se chama Fine Arts, uma denominação muito mais digna.

Além da arqueologia, Agatha Christie me despertou a paixão pelos livros e então me descobri em uma carreira.

Trabalhar em editora uniu duas coisas: o amor pelos livros físicos (seu cheiro, a textura do papel, o design) e o amor pelas palavras. Abrir um calhamaço de folhas e entrar numa aventura que a cada página se desdobra em algo inimaginável não tem preço.

Eu amo livros. Carrego um na bolsa, esse eu leio no metrô. Tenho um epub no computador, esse eu leio no almoço. Tenho um exemplar de 500 páginas, esse eu leio em casa.

Mas meu amor pela criação de Gutenberg me deixa um pouco melancólica, às vezes.

No Brasil, é muito complicado pensar em livro, pensar em ter uma editora, pensar em viver disso. Tirando o fato de que a população brasileira não lê com tanta frequência, isso já é incrivelmente desanimador, nós, do mercado editorial, nos deparamos com outra tristeza: as pessoas podem até comprar um livro, mas elas não o lerão.

Fato.

Quantos livros você comprou este ano? Dez? Quantos desses dez você leu? Dois… Três?

Hoje, no Brasil, livro virou artigo de luxo, de colecionador.

Isso não é ruim para o mercado, na verdade isso mantém o meu emprego vivo. Muitos dirão que o importante é que o estoque se esgote, que as livrarias façam pedidos. E de fato, isso é muito importante. O mercado editorial fechou o primeiro semestre de 2017 de forma positiva.

Mas e o outro lado?

As pessoas não leem!

A gente batalha atrás de um super tradutor, uma super revisora e um super prefaciador, todos, em suma, especialistas no autor, na obra, no gênero, no idioma e tudo isso para quê? Meu trabalho vai ficar lindo na sua estante, na sua mesa de centro e só.

O sintoma mais claro dessa “gourmetização” do livro é a exigência dos leitores. Eles querem livros gigantescos e de capa dura. A pobre da brochura foi deixada de lado, confinada nos livros didáticos, aqueles que ninguém lê mesmo.

O livro, aquele amontanhado de papel que serve para te contar algo, precisa ser funcional. E quer um formato mais funcional que o 14×21/brochura? É leve, dobrável e cabe em qualquer bolsa. Tirando o pocket, que é péssimo, pois as letras são miúdas e super condensadas, a brochura é a melhor opção. Nela, conseguimos fazer capas lindas, um trabalho gráfico de primeira, e conseguimos, também, dar conforto ao leitor.

Mas não… O brasileiro não gosta. A primeira pergunta/afirmação que nos fazem é: será capa dura, né?

Nos Estados Unidos, as editoras investem nele, na brochura, no paperback. E as pessoas compram, não apenas por que eles são baratos, a diferença de preço é mínima (uma brochura custa uns 10 dólares, enquanto uma capa dura custa uns 15), mas por que elas leem.

Entrei na Strand, na Barnes & Noble, na loja física da Amazon e vi, na maior parte das prateleiras, as brochuras, as lindas e confortáveis brochuras.

Não me levem a mal, não é que eu não goste de uma capa dura, acho linda. Só a vejo como um sintoma da “não leitura”.

Espero que este nicho que tanto amo supere essa gourmetização, que o Brasil tenha cada vez mais leitores e não somente compradores e que as pessoas entendam que livro deve ser atrativo, bonito, charmoso, mas que sua principal função é nos fazer viajar com as pés no chão, que entendam que livro é, principalmente, para ser lido.