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For June, 2018

A Copa de duas famílias

Meu nono se sentou na poltrona à espera do espetáculo. O ano era 1982. Fazia uma semana que a Copa da Espanha havia começado. Minha família sempre gostou muito de futebol. As duas famílias. A parte materna era italiana, com sangue bem quente e com uma boca bem grande para xingar aos quatro ventos. A família paterna era polonesa. Gente que demonstrava pouca emoção e falava o mínimo necessário.

Aquele jogo das duas da tarde era um Itália x Polônia e, embora não tivessem nada em comum, as duas famílias partilhavam da mesma paixão: o futebol.

A Polônia, nada vitoriosa, vivia da expectativa, das apostas em sua fábrica de camisas 9. A Itália, pelo contrário, contava com dois troféus na prateleira.

A família não era tão próxima, mas sempre teve uma boa relação, o leste europeu se dava até que bem com o oeste, mesmo a babcia, de vez em quando, reclamando, “Gente barulhenta”, ela dizia.

Num dia daquele junho de 82 as duas famílias se encontraram. Almoçaram juntas.

Meu nono estava desconfortável, ele ficava nervoso diante da sua Seleção. O Jogo estava no primeiro tempo e aos 34 o camisa 9 polonês marcou um gol. 0x1. E a Polônia estava na frente. Ele xingava bastante e nem percebia que não estava em sua casa.

1×1 e o semblante do velho melhorou. Casa polonesa mais quieta que o costume. 1×2 e o italiano surtou.

O jogo terminou e o velho ficou emburrado no canto. Minha mãe, com sua sábia paciência, foi até ele e conversou, “temos dois canecos, deixe eles terem algum”. O velho melhorou, se lembrou das Copas anteriores e da emoção que sentiu vendo sua Azurra campeã.

Meu nono,  então,  desejou que a família de lá sentisse a mesma emoção. Que ela pudesse ver sua seleção erguer a taça que já havia lhe dado tantas alegrias.

A Copa e o futebol são assim, de quatro em quatro anos fazem o velho mais turrão derreter o coração.

 

Mariana

Mariana gostava de arte. As paredes do seu pequeno apartamento eram recheadas de imagens que se dividiam em fotos preto e branco, reimpressões de pinturas famosas, pinturas de pessoas desconhecidas, mapas e figuras afetivas. Quase não se via a cor da tinta das paredes em alguns cômodos, poderia ser cinza ou branca, como saber?

Mariana também gostava de livros. Junto dos quadros os livros eram a segunda decoração em maior destaque. Alguns lidos outros pela metade e outros só folheados. Eles tinham cadeira cativa nas estantes que recheavam a sala e o seu quarto. Às vezes, também era possível encontrá-los no banheiro, ao lado do trono.

Diante dessas duas afirmações, é impossível dizer que Mariana não era uma pessoa culta, ou pelo menos interessada pelas faculdades criativas e instrutivas.

Mas Mariana tinha uma característica que soava como defeito para seus amigos mais próximos e familiares: Mariana detestava museus.

– Mariana, são as filas? Ou as pessoas amontadas? O que lhe incomoda? – perguntava a irmã.

– Nada disso! Eu só não gosto de sair de casa para admirar obras que eu poderia facilmente encontrar na internet ou nas páginas de um livro.

– Você é esquisita! – desdenhava a irmã.

Não gostar de ir a museus soava anticultural e muitos amigos diziam que ela não deveria espalhar essa informação.

Mas Mariana não se sentia mal. Ouvia e ignorava.

Era o começo do outono e as flores, aos poucos, iam embora e as folhas, que começavam a secar, ganhavam destaque.

Mariana parou diante de um Ipê e ficou por minutos observando o amarelo pisado no chão, o pouco de amarelo entre os galhos e se lembrou de Van Gogh.

Mariana era capaz de ver arte onde muitos ignoravam.

 

Photo by kevin laminto on Unsplash