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For May, 2018

O problema com a mala

Era o último dia e o inevitável se aproximava. Todas aquelas tranqueiras espalhadas pelo quarto teriam que caber dentro de um espaço 60×40 cm.

Doze livros, quatrocentas e tantas mudas de roupa e mais uns cem cacarecos. A questão física era inviável, não caberia. Mas levando em conta a questão sentimental, Ana estava determinada a não deixar nenhum homem para trás.

Arrumar as malas havia se tornado um exercício muito mais exaustivo do que qualquer esteira numa academia. Ela ficou umas três horas tentando encaixar tudo aquilo e como num jogo de tetris, nenhum lugar deveria sobrar. Ainda havia a questão dos frágeis, eles não podiam ficar espalhados, dançando pela mala, e precisavam ser aninhados numa muda de roupa qualquer. Mais um trabalho.

Coloca aqui, tira dali, coloca de novo, ajeita um pouco, chora um pouco também — limpa o suor –, coloca novamente, usa o espaço da caneca — “por que comprei canecas?”, Ana pensou –, tira tudo das caixas que ocupam espaços desnecessários… E assim o malabarismo seguiu.

Umas tantas horas depois tudo estava no devido lugar.

Ana olhou para aquela mala fechada e bonitinha, para aquele quarto arrumado e sentiu um orgulho. Ela havia conseguido! Tudo estava dentro e permaneceria assim até o desembarque em sua casa.

Só que, após toda a euforia, veio um vazio. Ana percebeu que estava indo embora.

A gente aprende a gostar da cidade nova e nos dias finais da estadia começa até a se sentir como parte do lugar e do cotidiano das pessoas.

Então, Ana constatou: o último dia de férias é sempre uma merda!

Photo by Fredrick Kearney Jr on Unsplash

 

 

Cosme Velho Segundo

A tarefa parecia ser muito fácil: sentar-se e começar a escrever. Mas, para Pedro, tal tarefa havia se tornado extremamente difícil. Ele era escritor, ou pelo menos gostava de dizer para todos que essa era a sua profissão. Com três livros publicados abandonou o cargo público e resolveu se dedicar ao que era a sua paixão.

Seus três livros tinham feito um relativo sucesso, pelo menos o primeiro, cujos direitos haviam sido vendidos para Portugal.

Foi uma alegria. Pedro começou a se imaginar fazendo um booktour por Lisboa, Porto, Sintra, Évora, se imaginou palestrando na Universidade de Lisboa, discutindo com os graduandos o simbolismo por trás do personagem Joca, o protagonista do romance Estrada dos Sonhos. Um nome clichê para uma história sem condimentos.

Nada disso se tornou realidade. O livro não vendeu bem nas terras lusas, empacou nas prateleiras das livrarias e muitos foram parar nas bibliotecas onde ninguém os lia. Pedro imaginou que suas próximas histórias fariam mais sucesso e num embalo frenético escreveu o segundo e o terceiro, um atrás do outro. Só que dessa vez nenhum gringo quis saber das suas histórias e isso o abalou. Quando chegou a vez do quarto romance, empacou na sexta página.

Colocava-se diante do computador e nada surgia. O word ficava ali, com aquele tracinho piscando, a espera das próximas palavras, mas nada saia.

O mais comum nesses casos é respirar fundo, ler um pouco, tentar escrever sobre outra coisa, um texto aleatório… Mas não, Pedro pirou. Caiu num pânico, num medo de nunca mais escrever, medo de não ter dinheiro para pagar as contas e pior, medo de cair no ostracismo. “Com três livros no mercado uma galera sabe quem eu sou, estou no skoob e em uma questão literária no vestibular de Viçosa. Mas se não lançar nada novo, em cinco anos ninguém lembrará meu nome”.

A previsão de Pedro se concretizou. O quarto livro não vingou. Morreu na página doze. E Pedro virou um desconhecido, mas continuou vivo. Arrumou um emprego, voltou para a rotina e pegou trauma da escrita. Hoje em dia só escreve a lista de compras, nada mais.

Pedro foi com muita sede ao pote, criou uma história vendável e se sentiu “O” escritor do século XXI. Seu pior crítico, no entanto, foi feroz. Deu-lhe um bloqueio criativo devastador.

Pedro, que se sentia o Machado de Assis da nova era, findou a carreira quando percebeu que o que escrevia nunca chegaria aos pés do senhor do Cosme Velho.

Photo by rawpixel on Unsplash

Corrida matinal

O apartamento de Georgina ficava a umas três quadras do parque. O costume era acordar às seis horas da manhã, quando ainda estava um pouco escuro, preparar aquele café preto ­– que ela não tinha certeza se fazia mal ou não –, tomá-lo e descer. No elevador, que era um pouco antigo e por isso um pouco lento, Georgina confabulava “Me falaram que seria melhor comer bananas antes de fazer exercícios (…), por causa do potássio e coisa e tal”. Mas bananas não eram o seu forte e até o cheiro lhe causava repulsa.

Georgina nunca fora atlética, mas, ultimamente, aquelas gordurinhas sobrando estavam lhe causando aflições. O parque que fazia parte do cotidiano da Nova-Iorquina era o Central Park. Talvez o parque mais famoso do mundo e, também, o mais lotado. Porém, o Central Park guarda um segredo: ele é enorme. Sua grandeza impede que o vejamos como um lugar abarrotado de gente. Então Georgina podia se exercitar sem ter que desviar dos turistas.

– Um parque é um lugar mais saudável que uma academia –, Chin, uma senhora coreana com seus 76 anos, comentava com Georgina.

Elas se encontravam sem marcar encontros. Georgina botava o pé na Park Avenue exatamente às sete da manhã e este devia ser o mesmo horário em que Chin também descia a tal avenida em direção ao monumento de William Tecumseh, na entrada leste do parque – era lá que se encontravam.

– Por que diz isso, Chin? Não sei se é um lugar saudável, mas definitivamente é um lugar mais barato. Em uma YMCA eu gastaria uns 50 dólares mensais, fácil.

– Acho saudável porque não entramos em contato com o suor e bactérias alheios. Sabe-se lá se as pessoas que trabalham nas academias limpam direito aqueles trecos onde todo mundo se senta. Minha neta vive reclamando, ela leva seu próprio pano e álcool gel.

– Tem razão! Que nojo!

Correr e falar tirava, por muitas vezes, o fôlego de Georgina. Chin lidava com isso de maneira bem elegante, quase nunca tossia. “Seu diafragma é mais treinado que o meu”, Georgina pensava.

Georgina tinha 37 anos. No mundo atual os 30 eram os novos 20 e assim por diante. Então Georgina tinha 27.

Além das gordurinhas a corrida matinal tinha outro motivo. Ela andava estressada com o trabalho, sem ânimo para encontrar os amigos e com vontade de ficar em casa vendo TV. Nem os livros a satisfaziam mais. “Qualquer exercício físico lhe fará bem”, foi a sugestão da psicóloga. Georgina escutou e aceitou.

Chin era uma senhora com um papo muito bom. Sua família havia ficado na Coreia do Norte. Ela escapara com a ajuda de um amigo sul coreano. Não tinha saudades do seu antigo país, apenas dos irmãos e sobrinhos que nunca mais vira ou soubera notícias. Os Estados Unidos a acolheram, e ali Chin fez família, se casou, trabalhou, teve filhos, se aposentou, teve netos e hoje vivia uma vida bem confortável em Manhattan.

A história de Chin inspirava Georgina. Embora tenha tido uma juventude sofrida, as ruindades que o mundo mostrou não a impediram de buscar o melhor e ter, sempre, esperança. “Dos limões ela fez a limonada”, Georgina pensava e admitia que a frase, apesar de clichê, era o resumo da vida de Chin.

Aquelas manhãs com as corridas matinais e, principalmente, com a companhia de Chin tinham dado outro sentido para a vida de Georgina. O desanimo passou e até os livros voltaram a fazer parte da sua vida. Alguns, inclusive, por indicação de Chin.

Photo by Hector Argüello Canals on Unsplash