Monthly Archive

For April, 2018

Ricardo Reis

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-proprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ensopado madrileño

Eu tinha uma escala de doze horas em Madri. Quando comprei a passagem nem percebi, mas deveria ter desconfiado do preço… Estava muito acessível para não conter uma pegadinha. E tinha. Uma “pequena” escala.

Escalas são horríveis, são longas, mas não o bastante para te deixar aproveitar a cidade. Elas, secretamente, te dizem “olha essa cidade linda, você poderia desfrutá-la durante algumas horas, mas vai ficar presa nesta cadeira desconfortável, – risada maligna”. Os aeroportos, geralmente, são bem afastados de qualquer centro, o que faz sentido, ninguém merece morar ao lado das turbinas tipo Congonhas.

A escala me possibilitou um passeio pela capital espanhola. Nunca tive muita vontade de conhecer os países ibéricos, mas fui positivamente surpreendida.

A cidade é linda. Limpa. Com uma arquitetura invejável. Limpa. Canteiros com flores. Limpa… É, ela é muuuito limpa. Não encontrei sujeira na rua e olha que eu procurei, queria chegar ao Brasil e falar “nem é tudo isso, cheia de bituca de cigarro no chão”, mas não pude.

Desfrutei de umas 8 horas na cidade. O almoço estava incluso nessas horas. Com a indicação de um amigo, achei um restaurante bem simpático, O Caldino, que faz uma lula incrível. A melhor da minha vida. Comerei muitas, e tenho certeza que nenhuma será páreo para a lula do Caldino. A lula era entrada. E eu, burra, deveria ter ficado só com ela. Era grande, tava boa e era o suficiente. Achei rude não pedir o prato principal.

Eu não sabia, mas na Espanha os garçons não falam inglês, pelo menos o do Caldino não falava. Eu não falo espanhol e o espanhol deles não é o castelhano, ou seja, não dá para entender.

Com o cardápio na mão, sem entender bolhufas, tentando falar inglês, espanhol e até um italiano ridículo com o garçom, consegui pedir um pollo, que eu sabia que significava frango.

O pollo chegou. Era um ensopadão. Eu não entendi o que tinha ali dentro. Um caldo laranja, levemente apimentado, com batatas – acho que eram batatas, e pele, sim, muita pele de frango boiando… Dei duas bocadas e não consegui mais…

Fiquei com vergonha. Estava em outro país cujos costumes não me eram comuns. E se, deixar comida no prato, é sinônimo de heresia, falta de educação? Fiquei meia hora olhando para aquele caldo, tentando achar seus pontos positivos… Não deu. Larguei e agradeci.

Na hora de pagar, o garçom, que devia estar intrigado, tentando entender de que lugar eu era, afinal, tentei inglês, espanhol e até italiano, me perguntou. Respondi que era do Brasil e que estava um pouco confusa, pois tinha acabado de sair da Itália. Ele sorriu gentilmente e começou a falar português. Disse que aprendeu já que recebia muito turista do país.

Que merda! Se, desde o começo, eu tivesse soltado o bom e velho português, não teria pedido o ensopado e não teria contemplado aquela pele de frango que assustadoramente boiava.

Às vezes, não há idioma como o materno!

Photo by Zoltan Kovacs on Unsplash

A wonderful place

The world is a wonderful place.

Leave aside the rocks you find.

If you hit that sadness, see photos.

Not those taken by you,

But the photos of someone else

You will see infinite possibilities

To feel better:

Millions of places to see,

Millions of books to read,

Lots of ways to live

and

Countless coffees to try,

and remember: the world is a wonderful place.

 

Photo by Tom Holmes on Unsplash

1960

My mother was born in 1960, the year of the first electronic computer.
In 1969, when she was 9, astronauts aboard the Apollo 11 arrived on the moon.
It was a special decade for humanity, but more special for me, cause on February 14, 1960, my mother arrived in this world in a family who lived on the banks of the Ipiranga River, the one where D. Pedro gave the cry. She was the oldest of three brothers.

She was always witty and clinging very easily to people.
But her greatest quality was to be the center of the family.
She never went to college, but that did not stop her from working in various places.
She had always been a dreamer, wanted to do medicine and even thought about being a flight attendant, even though she had never traveled by plane.

In 1990, when she was 30 years old, she was graced with the arrival of two girls, twins. Two at a time. She decided that she would not work anymore and that she would occupy the most important position of her life: to be a mother.
She liked the new position so much that ten years later she got a promotion, my brother. A sweet little boy.

My mom was the kind of person who was always okay, except when she was fighting with us. “You stay too much on the computer”; “Drop this phone”; “Wash that crockery”.
It was that kind of mother who put her children first.

Sometimes I hear that Pink Floyd’s song, Mother, and I remember of her.

Momma will not let anyone get dirty through
Momma’s gonna wait up until you get in
Momma will always find out where you’ve been
Momma’s gonna keep baby healthy and clean

She was like that, overprotective. And I hated it. Today, I miss it.

We learn to live with longing. We learn to cling to memories, photos, videos.
I keep small things that were hers. As if they were treasures. I know it’s silly, it’s just stuff. But it’s her stuff.

Time works well, it heals a lot and happily passes fast.
And what remains is the lesson that life is a breath, one day we are and another we are not.

Maybe that’s the most important lesson she left me.
We have to do what we want, here and now.

[…]

1960 will always be my favorite year.

Carbonara à parte

Caminhar por Roma me deu a sensação de estar num parque arqueológico. As arquiteturas da cidade, às vezes moderna e quase sempre antiga, se misturam de forma única, um charme próprio. Bastava virar a esquina e eu já sacava a máquina fotográfica para tirar foto de algum monumento. Muitos eu já conhecia graças a uma pesquisa prévia, outros, só fotografei por que achei bonito mesmo.

Todos os cafés, restaurantes e bares eram muito convidativos. Demorei umas três horas para decidir o local do almoço. Passei pela Trattoria Da Lucia, coloquei um pé para dentro, o local era charmoso, titubeei e resolvi que pesquisaria mais um pouco. Dei o mesmo tratamento para outros cinco estabelecimentos e caí no Da Vito e Dina, na Via degli Scipioni, um ristorante vizinho do Papa.

Lá eu pedi a Seafood Pasta. É um macarrão que não deve ser muito típico, não sei, pra mim não tinha cara de comida italiana embora a pasta estivesse lá. Depois de comer muito Carbonara durante toda a viagem, é o prato mais barato da Itália, eu estava um pouco enjoada e frutos do mar me pareceu uma saída. Carbonara’s fans que não me julguem, mas o tal do Seafood estava delicioso.

Tomei vinho com a minha Seafood. Eu não gosto de vinho, ou pelo menos não gostava. Mas este é o charme da “bota”. Tudo que lá é fabricado tem um sabor diferente. Sai do país amando uma boa uva fermentada.

A próxima parada era na Fontana di Trevi, palco da Dolce Vita de Fellini. Na Fontana é muito comum as pessoas jogarem moedas e fazerem pedidos. Eu já tinha reservado as minhas cinco moedinhas, iria fazer cinco pedidos. Ficaria de costas e as arremessaria, uma de   cada vez.

Cheguei à Fontana. Quer dizer, eu achava que tinha chegado, pois eu nem conseguia vê-la. Naquele momento, aquela fonte era o lugar com a maior concentração de turista da face da terra. Certeza.

Na minha imaginação romanceada, eu encontraria a fonte e seria apenas ela e eu, numa conexão intima e profunda, faria meus pedidos e a luz que incidiria sobre sua água seria muito especial. Uma imaginação potencializada por uma exacerbada carga de leitura romanesca.

A Fontana, que mais parecia uma piscina pública num dia de muito sol, me decepcionou. Bem, não ela, mas o meio mundo que estava ali.

Eu fiz os cinco pedidos. Lancei as moedas de maneira meio torta, meio sem jeito.

Nenhum deles se realizou.

No dia seguinte, a visita seria ao Coliseu. Ao ir me aproximando dele, percebi que o pessoal do piscinão havia migrado pra lá também.

Andei pelas suas galerias repedindo “excuse-me” e trombando com meio mundo.

Passo por um casal, brasileiros, e ouço a mulher cochichar para o marido “nossa, como isso aqui tá lotado de turista!”. E percebo que faço parte daquilo, do isso, dos turistas. “Como posso reclamar do outros turistas se também sou uma?”, penso. Boto um sorriso amarelo no rosto e me pergunto onde posso deliciar o tiramisu mais próximo.

Photo by Izzy Boscawen on Unsplash

Amarelo

A casinha amarela tinha duas janelas e numa delas repousavam dois vasos, bem pequenos, com flores de cor lilás. Não soube dizer quais flores eram por que a verdade é que nada entendo de flores. Só sei reconhecer um girassol. Mas o girassol é a flor mais óbvia, talvez a mais conhecida do mundo. Graças a Van Gogh, imagino eu.

A rua de pedregulho dificultava a passagem. A rasteirinha nos pés não ajudou. Fazia muito sol e a ideia de colocar um tênis nos pés me causou aflição.

Encarei o chinelo com dignidade.

A casa onde eu estava hospedada era ao lado da casinha amarela. A minha vizinha simpática, que nunca conheci, gritava umas palavras em italiano bem regional. Eu não falo italiano, mas gosto de pensar que ela gritava no seu dialeto local. Ela gritava com uma criança ou uma jovem, não sei dizer. Só sei que a voz era estridente, característica dessa idade.

A casa amarela tinha um gatinho. Ele era amarelinho e combinava com o lugar onde morava. Estava sempre na soleira da porta. Não sei se sempre, mas pelo menos toda vez que eu passava.

Fiz uma amizade imaginaria com o bichano. Imaginei que aqueles gritos diários deveriam torturá-lo. Já ouvi dizer que os gatos tem a audição muito apurada e se o som estridente da criança me incomodava… Me compadeci com o podre animal.

Nossa amizade, aos poucos, saiu do imaginário e passou para a realidade. Toda vez que saia eu passava no mercado, ia até a sessão dos pets e comprava um pacotinho de biscoitos felinos. Ginger, o nome que inventei para ele, vinha até os meus pés atrás da comida gratuita.

Fomos nos tornando confidentes. Dois estranhos com um problema em comum: os moradores da casa amarela.

Ginger passou a me esperar na soleira todos os dias, mas não na minha volta e sim na minha ida. Eu passava e lá ia ele trotando atrás. No começo eu fiquei preocupada, “E se esse gato se perder? Será que ele consegue voltar para casa sozinho?”. Mas logo minha preocupação foi embora. Ginger era muito esperto e companheiro.

Todos os dias ele andava comigo pelo centro velho de Nápoles, me “mostrando” os lugares, me levando para ver a cidade que ele conhecia tão bem por ser um napolitano nato. Ginger, pelo meu olhar, devia ter uns cinco anos de idade.

Comemos pizza juntos. Ginger gostou do queijo e desdenhou a massa. Visitamos castelos, por fora, pois Ginger não podia entrar. Passeamos pelo shopping e lá Ginger ganhou uma coleira cor verde água, combinava com seus olhos. Demos um pulo na praia e Ginger ficou confuso com tantas conchinhas em meio aos cascalhos, tentou desenterrar todas.

Ginger se tornou a razão da minha viagem. Embora eu amasse estar desbravando uma nova cidade, eu amava mais o Ginger.

Uma semana antes do retorno ao meu país fiquei cabisbaixa. Me imaginei deixando Ginger para trás e nunca mais estando em sua companhia. Imaginei sua vida sem os meus biscoitos diários e tendo que aguentar os gritos da casa amarela. Sofri muito.

Mas eu não tinha o que fazer. Ginger não era meu. Pertencia às pessoas estridentes.

Então tive uma ideia maquiavélica. Dois dias antes do meu retorno, eu sequestraria o Ginger e esperaria para ver se alguém da casa amarela sentiria sua falta.

A ausência de Ginger não foi sequer notada. A mãe continuava gritando com a filha como havia feito desde o primeiro dia que pisei ali.

Ginger iria comigo.

Salvaria o meu gato.

Cheguei no aeroporto.

Comprei a passagem do Ginger.

Embarcamos.

Sentei-me na poltrona.

E o avião decolou.

O caminho todo senti-me uma ladra… Mas estava feliz. Ginger era meu novo companheiro e daquele momento em diante, ganharia biscoitos todos os dias de sua vida.

Photo by Danny Trujillo on Unsplash