Monthly Archive

For March, 2018

Contramão

O táxi amarelo indicava a cidade. E mesmo que pensasse estar no Rio de Janeiro, o som que saia das bocas dos transeuntes já lhe avisava: “Você está mesmo em Nova York!”. Pensamento engraçado e meio bobo. Confabulou se a mesma cor do táxi era algum tipo de ligação entre as duas cidades, algum pacto da engenharia de trânsito. Não soube dizer e ficou com preguiça de pesquisar no google.

Nina largou as malas no hotel e correu para a rua, precisava respirar aquele ar, um cheiro que só aquela cidade possuía. O aroma nova-iorquino é uma soma de muitos odores e perfumes, a fumaça que escapa dos escapamentos dos carros; o ar que sai dos buracos do metrô; a pizza sendo assada; o café sendo passado. Eles se encontram e nos agraciam. Não é ruim, nem bom, é o que é.

A primeira parada foi para comer o que vinha salivando em sua boca desde a saída do Brasil. Um cheesecake, qualquer um. Pararia na primeira lanchonete e lá largaria quatro, cinco dólares com satisfação.

Na esquina, ao lado do hotel, havia um dinner, desses que a gente vê em filme, xicara branca, estofado vermelho. Lá se sentou e pediu a torta cor de creme. Era deliciosa, como imaginou que seria. Sozinha, sentiu-se feliz por não ter que dividir aquilo com alguém.

De olho no cheesecake até o fim não reparou que na ponta da sua mesa repousava um livro. Não era seu. Não viu quem deixara ali. “O livro estava aqui, todo esse tempo?”, pensou. O cheesecake havia tomado toda a sua atenção. Até aquele momento.

Pegou-o na mão. Era um romance noir. Folhou. Leu a quarta capa. Se interessou. O livro era uma brochura, sua capa era mole, mas ele tinha duas orelhas, numa delas repousava a foto do autor orgulhoso – alguém que imaginou que enriqueceria vendendo sua história –, na outra orelha estava um nome e um telefone, “o dono do exemplar”, pensou.

“Vou leva-lo comigo e tentar entrar em contato com essa pessoa”, pensou alto. O livro, porém, atiçou sua curiosidade. A capa, ao estilo Walter Popp, era interessante e convidativa. Começou a leitura quando conseguiu pegar o metrô, a caminho do Central Park.

Num banco do parque, aproveitou e leu mais algumas páginas. Sequer notou aquela paisagem de outono que começava a colorir de laranja o chão por onde as bicicletas, os patins, os tênis passavam.

A história, que prendeu Nina, era sobre uma moça, Susan, que ia ao encontro de um detetive, Jacob, e lhe pedia ajuda. Susan buscava um artefato raro, que fora roubado por uma gangue local. A busca por tal artefato já havia causado a morte de inúmeras pessoas. Jacob era a última esperança de Susan. “Uma cópia barata de O Falcão Maltes”, pensou.

A tal cópia barata a encantou de maneira surreal. Era aquele tipo de livro que te suga, que te faz devorar as páginas em busca da conclusão e que te faz implorar para que a história não chegue ao fim.

O romance noir parecia mágico. Fez Nina ignorar Nova York e agora, estava mexendo com a sua cabeça. Começara a ser perceber como Susan, a protagonista. Era loira como Susan, era insistente como Susan. Mas só isso. Nada além de uma corriqueira coincidência.

Voltando para o Hotel pensou “preciso devolver este livro”, Glover, o nome rabiscado na orelha “Deve estar a sua procura”.

O fato é que ela não conseguia, queria terminar a história que era bem longa, em torno de umas quinhentas páginas.

O livro estava arruinando sua viagem, não saia mais do hotel e quando saia, sentava-se em algum banco e ficava lá, lendo.

Nova York havia perdido esta batalha. Fora ignorada pelo romance noir, gênero que se consagrou em suas entranhas. A história era mais interessante que a grande maçã.

Susan, Jacob e o enredo, uma cópia de Dashiel Hammett, custaram dez mil reais, o valor que Nina havia investido em sua viagem.

Photo by Charisse Kenion on Unsplash

Cada canto um conto

Gosto muito de escrever. Não importa o quê.

Ficção, realidade, texto sobre um filme, sobre um livro, sobre uma situação, sobre meus gatos. Enfim, qualquer coisa.

Meus textos são curtos, nunca consegui levá-los à quarta página. Mas não acho que isso seja um defeito, apenas um jeito de lidar com as palavras. Lovecraft nunca escreveu romances, apenas contos.

Pensei em juntar duas paixões, escrever e viajar. Criei pequenos textos — não sei se posso considerá-los contos — sobre cada lugar que visitei. Não foram muitos, mas foram especiais.

São cinco ficções que se passam em cinco cidades. Postarei uma a cada semana.

Photo by Aaron Burden on Unsplash

 

 

Julia Child

Recentemente, numa tarde de molho e com virose em casa, revi o filme Julie e Julia. Nele a personagem principal, Julie, decide, após encontrar-se desgostosa com a própria vida,  cozinhar todas as receitas presentes no livro Mastering the Art of French Cooking, de Julia Child, Simone Beck e Louisette Bertholle. O livro contém 524 receitas e Julie deve executá-las em apenas um ano, 365 dias x 524 receitas.

A ideia de Julie é fantástica. Imagine ter o tempo para, todos os dias, cozinhar as receitas que Julia Child desenvolveu e desmistificou (ela tornou a culinária francesa muito mais acessível). Jantar Boeuf Bourguignon seria maravilhoso, e na noite seguinte um Fricassée de poulet à l’ancienne? Eu nem sei o que é, mas o nome soa magnífico.

Porém, há dois problemas nisso tudo. O primeiro é o tempo. Eu não conheço as receitas do livro, mas imagino que algumas delas sejam trabalhosas, tipo o próprio Bourguignon. Ou seja, a pessoa teria que chegar relativamente cedo em casa e para isso, fugir do caótico trânsito de São Paulo. O segundo problema é: Julie não mora no Brasil. Fazer mercado em Nova York é infinitamente mais barato que aqui. Imagina quanto custa a tal da carne que vai no Bourguignon? Não é carne de segunda, é uma alcatra, que custa, em média, uns 25 reais. Sem chances. Só a carne custa 25, daí tem o vinho tinto (e você não vai querer usar um Sangue de Boi), as cenouras e mais tudo que vai. Essa janta sairá por uns 80 reais, no mínimo. Para a Julie a mesma janta deve sair por uns 25 dólares.

Impensável seguir os passos de Julie e Julia Child. Calculo que ao final do ano estaria quebrada, financeira e fisicamente. A vontade e o paladar eu tenho, só falta o dinheiro e o tempo mesmo.

Recently, in one afternoon of sauce and virose at home, I reviewed the movie Julie and Julia. In it, the main character, Julie, decides, after being displeased with her own life, to cook all the recipes present in the book Mastering the Art of French Cooking, by Julia Child, Simone Beck, and Louisette Bertholle. The book contains 524 recipes and Julie must run them in just one year, 365 days x 524 recipes.

Julie’s idea is fantastic. Imagine having the time to, every day, cook the recipes that Julia Child developed and demystified (she made French cooking much more accessible). Dinner Boeuf Bourguignon would be wonderful, and the next night a Fricassée de poulet à l’ancienne? I do not even know what it is, but the name sounds magnificent.

But there are two problems in all this. The first is time. I do not know the recipes of the book, but I imagine some of them are laborious, like Bourguignon himself. That is, the person would have to arrive relatively early at home and for that, to escape the chaotic traffic of São Paulo. The second problem is: Julie does not live in Brazil. Making a market in New York is infinitely cheaper than here. Can you imagine how much it costs for the meat that goes on Bourguignon? It is not second-rate meat, it is a rump steake, which costs, on average, about 25 reais. No chances. Only the meat costs 25, so there’s the red wine (and you will not want to use Sangue de Boi), the carrots and everything else that goes. This dinner will be about 80 reais, at least. For Julie, the same dinner should come out for about 25 dollars.

Unthinkable to follow in the footsteps of Julie and Julia Child. I estimate that by the end of the year I would be broken financially and physically. The will and the taste I have, all I need is money and time.