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For January, 2018

Uma, duas…

Enquanto despertava lentamente, o cheiro do café invadia o quarto, o mesmo aroma de todos os dias, que, embora repetitivo, não causava enjoo ou repudia. Fazia tudo as pressas, o banho, a escova no cabelo, a escolha da roupa de todo dia: uma calça jeans, um par de tênis e uma camiseta não tão surrada – havia sido comprada nas últimas férias.

A pressa tinha um sentido e demostrava, acima de tudo, o desleixo com a própria aparência. Sem maquiagem, de cara lavada, descia correndo as escadas para apreciar o que o aroma havia aguçado. Café, puro mesmo. Sem açúcar ou leite. Só o líquido preto na xícara branca, já machada, que visualmente gerava um contraste clichê, mas ainda sim incrível. O café era tomado com o bafo matinal, os dentes eram lavados depois afinal, a pasta de menta estragaria qualquer apreciação.

Café tomado, dente lavado. Hora de sair. Os compromissos diários do dia-a-dia já batiam na porta. Cindo minutos de atraso e o metrô estaria um inferno, mais do que o habitual. Teria mais gente, respirando o ar exalado pelo vizinho, por metro quadrado.

Os pensamentos que guiavam sua viagem se desenvolviam na seguinte ordem: “tenho três e-mails que precisam ser respondidos assim que eu colocar a minha bunda na cadeira; minha gaveta tá uma bagunça, talvez eu consiga arrumá-la hoje; será que o café estará pronto?”.

A segunda xicara, não branca, mas colorida estava estacionada na mesa, ao lado do bloco de notas todo rabiscado.

O aroma era o mesmo que invadira seu quarto. Não reconhecia diferenças entre marcas e sabores, seu cérebro só sabia que o conforto logo chegaria.

Café, reunião, café, almoço, café. E a terceira xícara chegava, com a esperança de ser a última, “ando bebendo muito café”, pensava.

Photo by IRENE COCO on Unsplash.

De amor e trevas

Recentemente li um livro que me tocou muito. Pantera no Porão é uma obra delicada e que, utilizando a visão de um menino de 12 ano, o Prófi, nos mostra um pouco de como foi a ocupação inglesa anos antes da criação do Estado de Israel.

Prófi é um garoto esperto que deseja ver seu país, ainda não formado, livre do invasores britânicos. Ele e mais dois amigos, Ben-Hur e Tchita, formam a POL, uma organização guerrilheira que visa jogar uma bomba no reinado de Jorge VI, lá no parlamento inglês.

A história de Prófi é, não integralmente, uma lembrança da vida de Amós Oz, escritor israelense nascido no ano de 1939 e cuja infância se passou numa Jerusalém de muitos líderes.

Do seu livro De Amor e Trevas, lançado em 2005, surgiu sua autobiografia, mais tarde adaptada para o cinema, que muito me lembrou o jovem Prófi, filho único de um pai escritor e uma mãe amorosa, cujas noites eram marcadas pelo toque de recolher que o governo britânico impunha a todos, fossem judeus ou não. É como se o Profi do livro de 1995 ecoasse na obra dos anos 2000.

Uma infância que por certo ficou muito bem gravada em Oz. E não poderia ser diferente, sua vivência se passou num país onde soldados alheios desfilavam pelas ruas com carabinas a tira-colo, onde o temor de bombas e tanques de guerra era constante.

A criança Amós cresce junto com sua nação, um Estado que se torna independente em 1948 e que nasce para reunir todos os judeus espalhados pelo mundo após inúmeras diásporas e sofrimento.