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For December, 2017

Livro no Brasil

Este é a singela opinião de uma pessoa que está no mercado editorial há mais ou menos cincos anos.

Trabalhar em editora nunca foi meu principal objetivo de vida. Eu queria ser cientista, astronauta, arqueóloga, aquelas profissões que apareciam com uma certa frequência no cinema.

Quando estava no ensino médio eu queria fazer história. Influenciada, em parte, por ótimos professores, mas também pelas aventuras de Hercule Poirot na Mesopotâmia, no Nilo.

Descobri que arqueologia, pelo menos no Brasil, não daria em nada e desisti.

Fui para a Letras, que fora do país se chama Fine Arts, uma denominação muito mais digna.

Além da arqueologia, Agatha Christie me despertou a paixão pelos livros e então me descobri em uma carreira.

Trabalhar em editora uniu duas coisas: o amor pelos livros físicos (seu cheiro, a textura do papel, o design) e o amor pelas palavras. Abrir um calhamaço de folhas e entrar numa aventura que a cada página se desdobra em algo inimaginável não tem preço.

Eu amo livros. Carrego um na bolsa, esse eu leio no metrô. Tenho um epub no computador, esse eu leio no almoço. Tenho um exemplar de 500 páginas, esse eu leio em casa.

Mas meu amor pela criação de Gutenberg me deixa um pouco melancólica, às vezes.

No Brasil, é muito complicado pensar em livro, pensar em ter uma editora, pensar em viver disso. Tirando o fato de que a população brasileira não lê com tanta frequência, isso já é incrivelmente desanimador, nós, do mercado editorial, nos deparamos com outra tristeza: as pessoas podem até comprar um livro, mas elas não o lerão.

Fato.

Quantos livros você comprou este ano? Dez? Quantos desses dez você leu? Dois… Três?

Hoje, no Brasil, livro virou artigo de luxo, de colecionador.

Isso não é ruim para o mercado, na verdade isso mantém o meu emprego vivo. Muitos dirão que o importante é que o estoque se esgote, que as livrarias façam pedidos. E de fato, isso é muito importante. O mercado editorial fechou o primeiro semestre de 2017 de forma positiva.

Mas e o outro lado?

As pessoas não leem!

A gente batalha atrás de um super tradutor, uma super revisora e um super prefaciador, todos, em suma, especialistas no autor, na obra, no gênero, no idioma e tudo isso para quê? Meu trabalho vai ficar lindo na sua estante, na sua mesa de centro e só.

O sintoma mais claro dessa “gourmetização” do livro é a exigência dos leitores. Eles querem livros gigantescos e de capa dura. A pobre da brochura foi deixada de lado, confinada nos livros didáticos, aqueles que ninguém lê mesmo.

O livro, aquele amontanhado de papel que serve para te contar algo, precisa ser funcional. E quer um formato mais funcional que o 14×21/brochura? É leve, dobrável e cabe em qualquer bolsa. Tirando o pocket, que é péssimo, pois as letras são miúdas e super condensadas, a brochura é a melhor opção. Nela, conseguimos fazer capas lindas, um trabalho gráfico de primeira, e conseguimos, também, dar conforto ao leitor.

Mas não… O brasileiro não gosta. A primeira pergunta/afirmação que nos fazem é: será capa dura, né?

Nos Estados Unidos, as editoras investem nele, na brochura, no paperback. E as pessoas compram, não apenas por que eles são baratos, a diferença de preço é mínima (uma brochura custa uns 10 dólares, enquanto uma capa dura custa uns 15), mas por que elas leem.

Entrei na Strand, na Barnes & Noble, na loja física da Amazon e vi, na maior parte das prateleiras, as brochuras, as lindas e confortáveis brochuras.

Não me levem a mal, não é que eu não goste de uma capa dura, acho linda. Só a vejo como um sintoma da “não leitura”.

Espero que este nicho que tanto amo supere essa gourmetização, que o Brasil tenha cada vez mais leitores e não somente compradores e que as pessoas entendam que livro deve ser atrativo, bonito, charmoso, mas que sua principal função é nos fazer viajar com as pés no chão, que entendam que livro é, principalmente, para ser lido.

Marvel Comics: a história secreta

Eu ganhei esse livro em 2012, e desde então, tentei lê-lo umas três vezes.

Não por achar sua escrita difícil ou tediosa, mas por que o assunto que Sean Howe trata em sua obra, a história da Marvel, é uma das coisas que mais me fascinam na cultura pop e eu li e reli os parágrafos tentando fazer as conexões dos nomes das empresas, dos desenhistas e editores querendo compreender tudo.

Comecei, pela quarta vez, sua leitura no mês passado.

A história da Marvel é bem complexa. A empresa nasceu em meados de 1934 pelas mãos de Martin Goodman, que na época publicava os pulps, que eram revistinhas em papel barato cuja temática rondava histórias noir, western e ficção científica.

A Marvel era um braço da Timely Publications que se estabeleceu, sob a supervisão de Goodman, em 1939.

Desde 1939, a editora, com sua concorrente Detective Comics já estabelecida no mercado, saiu à procura de roteiristas e desenhistas que pudessem, também, criar super-heróis que competiriam com o sucesso de vendas do Superman, lançado na Action Comics em 1938, Batman etc. Em outubro de 1939 o Tocha-humana fez sua estreia nos pulps tendo como arqui-inimigo Namor, o príncipe submarino.

A sacada da Timely foi, como bem apontou Howe, utilizar como pano de fundo para as aventuras desses seres fantásticos a velha cidade já conhecida e amada pelos leitores daqueles gibis. Tocha Humana e Namor se enfrentavam pelas ruas de Manhattan. Os cenários eram o rio Hudson, o Empire State Bulding, e outros pontos turísticos da grande maçã. Diferente da proposta da DC, a Timely não investia em universo intergaláctico, mas apostava no mundano e acertava, e muito. Ela faturava uns 30 mil dólares com as revistinhas do Tocha e isso era um grande montante, levando em conta que cada exemplar custava, mais ou menos, uns 10 cents.

Grandes nomes vieram ao encontro de Goodman, na época, garotos cursando faculdade de artes ou apenas garotos com talento à procura de uma oportunidade na indústria que fabricava aquilo que eles mais amavam, imaginação. Jack Kirby chegou, Steve Ditko e Stanley Lieber, o Stan Lee, também apareceram. Garotos que aprenderam colocando a mão na massa e se sujeitando a todo tipo de trabalho. Stan Lee começou jovem na Timely, com uns 14 anos, e era o responsável pelo cafezinho, além de ser o office boy. Em suas primeiras histórias, Stan Lee assinou seu nome desta forma por achar que o escrevia no começo da carreira era muito ruim e aquelas tirinhas poderiam sujar sua futura imagem.

Lee cresceu, na vida e na empresa. Kirby e Ditko saíram e voltaram. Outros artistas vieram, como John Romita. Capitão América lutou contra Hitler e deu esperança aos americanos em tempos sombrios. A Guerra-Fria chegou, fez parte de inúmeras histórias e nos presenteou com o Quarteto-Fantástico, cuja inspiração para a criação de um super time saiu da concorrente e sua Liga da Justiça da América. Todo super-herói lutava contra ameaças comunistas.

A primeira história sob o selo Marvel Comics foi do Quarteto, que ganhou sua própria versão do Tocha-Humana, um herói que ressuscitou repaginado.

E a Timely que era uma empresa de um andar cresceu. Sem deixar de passar por quase falências. Entre altos e baixos surgiram Homem-Aranha, Vingadores, Demolidor etc., toda uma gama de super-heróis que encantam até hoje.

Essas histórias que já fascinaram gerações lidavam com questões que faziam muito sentido para a época, como o medo da guerra, o terror nazista. Criaram gerações de leitores que se espelhavam naqueles personagens. Todo mundo queria ser um super-herói, ser correto e fazer sempre o bem.

Gosto de pensar que além da diversão, as histórias em quadrinhos são capazes de ajudar na edificação dos leitores. Sou grata a elas e especialmente à Marvel por ter me presenteado com uma infância divertida, esperançosa e acima de tudo, super-heróica.