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For February, 2017

Música é roteiro

Toda vez que assisto um filme, seja do gênero que for, eu presto bastante atenção na trilha sonora. Algumas são puramente instrumentais, é o caso da maior parte dos filmes de ficção científica, como A Chegada, 2001. Mas a maior parte dos filme que vejo pertencem ao romance e à comédia, muitos são os chamados filmes “indie” e as trilhas sonoras desses, em particular, tendem a ser ótimas.

Recentemente vi dois filmes que se encaixam neste gênero, Away we go, um filme de Sam Mendes e The Hollars, filme de John Krasisnki. Ambos soundtracks são excelentes e de certa forma, ajudam a construir a narrativa do filme. A trilha de Away we go pertence, basicamente, a Alexi Murdoch e a sua música Wait, que é tocada na cena final, ajuda a compor e a expressar a densidade de sentimentos da personagem principal. Ela, Verona, se vê, finalmente, no lugar certo, depois de uma grande viagem pelos EUA em busca de um lar ideal onde pudesse criar o filho prestes a nascer. A letra de Murdoch diz:

Feel I’m on the verge of some great truth
Were I’m finally in my place
But I’m fumbling still for proof
And it’s cluttering my space
Casting shadows on my face

O lugar que Verona “encontra” é a casa onde viveu durante a infância, antes de perder os pais em um acidente. Verona finalmente está em seu lugar, em seu lar.

A cena com a música é essa:

Impossível assistir e não se emocionar. Agora imagine assistir sem a música, não emocionaria da mesma forma.

No filme The Hollars, há uma cena onde o personagem de Krasinski encontra o lugar onde brincava na infância. Nesta hora a música de fundo é a Another Story, da banda The Head and the Heart. E a letra diz:

These are just flames
Burning in your fireplace
I hear your voice and it seems
As if it was all a dream
I wish it was all a dream

Can we go on like it once was

Mais uma vez o sentimento do personagem é contado com a ajuda da música, John Hollar volta pra cidade onde cresceu, revê a família, a namorada da infância e tem que lidar com a doença da mãe. Ele encontra o balanço onde brincava e o que passa por sua cabeça é: “tudo não pode ser como era?”. Afinal, na infância as coisas são bem mais fáceis.

Dois filmes excelentes com trilhas sonoras fundamentais para fazer deles o que são:  duas grandes jornadas na direção do autoconhecimento e do encontro daquilo que falta.

Filme e música é igual a pão com manteiga, combina demais!

 

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Letters Live

Letters Live é um evento bem legal que acontece em Londres. Neste projeto atores fazem leituras de cartas para o público. No vídeo abaixo, Benedict Cumberbatch, um dos idealizadores  do projeto, lê a carta que o pintor e escultor estadunidense, que pertenceu ao movimento minimalista, Sol LeWitt enviou para sua amiga, a também escultora Eva Hesse em 1965.

Tinker, Tailor, Soldier, Spy

An old-fashioned espionage thriller, a necessary come back to the old style of making movies. The film was released in 2011 and the Oscar did not care much for it. The film was nominated in two categories, Gary Oldman as best actor and best original soundtrack, but it did not win either of them.

The plot is brilliant and the way the film goes holds your attention all the time and in two-hour movie, the viewer does not feel uncomfortable or bored. It is not a blockbuster movie and it is not an easy going movie, but it is that kind of movie that you must pay attention to and do not miss anything, otherwise you will feel lost. But do not worry, the movie does not need to strive to catch the viewer eyes.

The film is an adaptation from the same titled book Tinker, Tailor, Soldier, Spy by John Le Carré: In the 1970s during the Cold War, the head of British Intelligence, Control (John Hurt), resigns after an operation in Budapest, Hungary goes badly wrong. It transpires that Control believed one of four senior figures in the service was in fact a Russian agent and the Hungary operation was an attempt to identify which of them it was. The main character Smiley, Gary Oldman, had been forced into retirement by the departure of Control, but is asked by a senior government figure to investigate a story told to him by a rogue agent, Ricky Tarr.

The casting is also very, very good, Gary Oldman, John Hurt, Mark Strong, Toby Jones, Colin Firth, Benedict Cumberbatch, and Tom Hardy.

The title in Portuguese is O espião que sabia demais, something like The spy who knew too much, not a bad title, but terrible comparing to the original one. The original title makes an analogy to chess. The tinker, tailor and soldier are common names for this game’s pieces. Control is the man playing chess and the pieces are the five suspects, who at the same time are protecting the king, the Russian agent.

Films like these shows that sometimes it is good and necessary to take your attention away from the great franchises and blockbusters. Movies with old formats can bring a nostalgia and new way to watch a story on the screen.

Mariana Zucheli

Bibliothèque Idéale du naufragé

Comecei a ler um livro bem interessante, Bibliothèque Idéale du naufragé de François Armanet. Essa obra é diferente de tudo que já li. Editado pela editora francesa Flammarion, o livro de Armanet reúne escritores do mundo todo e lhes propõe a simples pergunta: Quais são os três livros que você levaria para uma ilha deserta?

A ideia do livro foi concebida quando François Armanet trabalhava na revista Le Nouvel Observateur e conversou com mais de duzentos escritores, Milan Kundera, Amos Oz, Mario Vargas Llosa. Durante a entrevista, ele sempre colocava a questão: quais seriam os três livros?

Essas respostas viraram um livro, bem divertido e curioso, que conta com as ilustrações de Stéphane Trapier, um dos ilustradores do Le Monde.

Lendo-o eu percebi que existem livros “hors concours”, que aparecem em duas a cada três respostas, como Em busca do tempo perdido, de Proust, Dom Quixote, de Cervantes, a Bíblia, alguma obra de Shakespeare. Ou seja, livros já consagrados na história da humanidade. Eu não esperaria diferente, escritores/entendedores da literatura mundial só reafirmaram a importância de tais obras.

Quando cheguei na página 49, Harlan Coben, autor americano que publica, em suma, livros de mistério, fez o seguinte questionamento: por que levar um livro que já li? Por que reler? “Meus livros preferidos continuarão vivos na minha mente”, Coben disse, “uma ilha deserta seria o lugar ideal para ter uma nova experiência”, completou. Ou seja, ele levaria livros novos, os quais nunca leu.

Fiquei penando nisso, pois até a página 49 eu, mentalmente, estava fazendo uma lista dos livros que já li, tentando eleger apenas três para levar para a minha ilha. Com as palavras de Coben eu mudei meu pensamento, percebi que seria muito mais interessante ler algo que nunca havia lido. Me imaginei entediada em um lugar rodeado por mar, com apenas água de coco para beber e tendo que ler uma história que eu já conhecia, que já sabia o começo, meio e fim. Tédio total! Não sobreviveria muito mais tempo.

É verdade que levando livros que ainda não li, que não conheço, eu poderia ficar presa a livros chatos, enfadonhos. Sim, mas eu também corro o “risco” de levar um livro ótimo, capaz de me dar “sobrevida” enquanto presa na ilha. É um caso de 50/50.  E entre a aposta  “segura”, porém entediante, eu me aventuraria.

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Meia-noite em Paris

Hoje eu assisti ao filme Meia-noite em Paris do Woody Allen, embora eu goste muito do diretor/escritor, eu nunca tinha tido vontade de ver este filme, em particular. Eu nunca fui para Paris e como o filme se passa e respira a cidade, eu tive a sensação de que ele poderia estragar o meu primeiro contato com ela.

Me rendi depois de ver Manhattan Murder Mystery pois decidi que precisava ver a filmografia completa de Allen.

No Netflix tem uns 10 filmes dele e por coincidência na Editora onde trabalho, nós estamos em pesquisa e elaboração com algumas obras de escritores do século 20, como o próprio Fitzgerald, a Gertrude Stein e também Virginia Woolf. Decidi, então, que veria Meia-noite em Paris.

O filme é ótimo. Gil Pender conhece seus ídolos no momento em que o relógio badala meia-noite. Fantástico. Ele nos leva para uma época, Paris dos anos 20, onde queremos morar, onde queremos ser amigos de todos. Imagine viver no meio social de Hemingway, Stein, Picasso? Um deleite para qualquer apaixonado por literatura e artes.

Porém o que mais me chamou atenção no filme não foi nenhum personagem icônico, não foi Hemingway ou Cole Porter, mas um personagem bem secundário, interpretado pelo ator Michael Sheen, o Paul Bates. Bates é o típico cara chato, aquece que existe aos montes, aquele que podemos encontrar em qualquer faculdade, clube de leitura, bar, café, biblioteca, é o cara que acha que sabe tudo ­– às vezes sabe mesmo –, mas não consegue ficar de boca fechada, não consegue discordar mentalmente apenas , o tipo de pessoa que precisa ter a opinião correta sobre tudo e todos, aquele que discorda até da Carla Bruni (quem viu o filme vai entender).

É primordial evitar pessoas assim, elas são capazes de nos irritar em um grau elevado a ponto de fazer com que sintamos pena delas – elas devem ter uma vida muito vazia para agir do jeito que agem  – e pena é um sentimento péssimo.
Por um mundo com mais Gil Penders, aqueles que são sonhadores mesmo, e menos Paul Bates, aqueles que enchem o saco.

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